Hipoglicemia: “Estive paralisada durante 10 horas”

Descobri que tinha diabetes aos 8 anos. Pesava 48 quilos e em três semanas perdi 18. Só que o médico no Hospital Dona Estefânia disse à minha mãe que era normal, fazia parte da idade. A minha mãe não ficou satisfeita com a resposta e levou-me a outro médico. Fizeram-me novas análises e tinha uns valores altíssimos.

Como me disseram? Lembro-me que uma médica me explicou que não podia comer mais pastilhas de goma, que eu adorava. Nunca fui muito gulosa, mas gostava de balas como qualquer criança. Depois proibiram-me de fazer ginástica na escola. Isso era complicado. Mas o mais difícil foi administrar a insulina. Explicaram-me muito como era, numa almofada. E depois me ensinaram a aplicar insulina em minha perna, mas não conseguia.

Até aos 12 anos eram os meus pais que aplicavam insulina em mim. Tudo melhorou depois que consegui administrar insulina com as canetas. Antes não. Para ver o nível de glicemias também quase que me cortava o dedo. Sempre odiei agulhas. Pânico, mesmo. Tive de aprender. As insulinas já não me fazem confusão.

A primeira vez que tive uma hipoglicemia [baixa concentração dos níveis de glicose (açúcar) no sangue], estava internada e quando sai do banho comentei com a minha colega do quarto que estava me sentindo mal, transpirando muito. Caí para o lado. Entrei em coma. Já tive muitos episódios de hipoglicemia desde então, e às vezes acordava no hospital sem saber o que tinha acontecido.

Tinha cuidado com a comida, comia na hora certa, mas sempre tive valores muito desregrados. É uma diabetes tipo 1 muito difícil de controlar. Olhe, de madrugada tive 300 e agora estou com 90…

Os meus pais levaram muitas vezes para o hospital porque quando entrava em coma de noite, não me conseguiam dar água com açúcar, já não conseguia engolir. Lá ia para o hospital. Já casada, o meu ex-marido levou ao colo para o hospital.

Quando estou acordada consigo detectar alguns sintomas de hipoglicemias, então sei que tenho de comer um pão com manteiga ou um pão com marmelada. O problema é de noite. Mas tive um episódio mais complicado. Agora vivo sozinha e já tive dois ou três episódios sérios. Não conseguia nem falar. Nem mexer-me. É complicado. Mesmo com o telefone celular ao lado…

O último episódio, tentei chegar ao celular para pedir ajuda e ouvia a minha irmã – que mora na casa ao lado subindo e descendo as escadas – e eu não conseguia chegar ao telefone. Fiquei 10 horas com uma hipoglicemia grave. Depois deste tempo consegui chegar ao celular e atender o telefonema de uma amiga que percebeu que eu não falava. Foi quando vieram me socorrer. Foi um dia de sorte.

Chamaram bombeiros, deram-me comida, água açucarada. Mas para perceber como ainda há ideias erradas e preconceitos ouvi uma das bombeiras perguntando: “não lhe deram insulina?” O problema era o contrário. Era falta de açúcar. Qualquer dia acabam por me matar.

Tenho uma diabetes complicada, tanto que o meu médico diz-me para não ir às Emergências. Porque lá podem me dar por normal. Tenho de andar com um papel do meu médico a explicar isso, porque quase me maltrataram quando não quis tomar a dose recomendada por eles.

Gravidez complicada

Engravidei sem planejar e tenho de agradecer à minha médica, Sílvia Saraiva, por tudo. Foi uma gravidez complicada. Eu tinha de fazer 20 picadas por dia, comer durante a noite, para não ter hipoglicemias. Mesmo assim meu filho nasceu prematuro, com 35 semanas, e entrei em coma durante o parto. Mas com ele correu tudo bem. Hoje meu filho tem 23 anos e está com quase 1,90m. 

Como fui diagnosticada muito jovem, habituei-me a comer a horas certas, e a controlar as coisas. Por exemplo, se for a uma festa ou lugar semelhante, aumento a insulina rápida. Mas o que mais temo em relação à diabetes, são as consequências que posso vir a ter: hemodiálise e cegueira.

Esta campanha de alerta sobre a hipoglicemia é importante para explicar às pessoas e às crianças do que se trata e o que se deve fazer. As pessoas não têm noção do impacto que isso tem na vida da gente que passa por isso. Se tenho uma hipoglicemia de noite, no dia seguinte é impossível ir trabalhar.

Também há erros, lembro-me de numa novela mostrando uma atriz, que era diabética que ao passar por um episódio de hipoglicemia administravam-lhe insulina. Tudo errado. É importante alertar e esclarecer.

Participei na campanha porque sempre fui cobaia das insulinas, das máquinas, experimentava tudo. Desde que não me faça mal e seja para o meu bem e para o das pessoas que passam pela mesma situação, vou fazer. Costumo dizer que quando tiverem um pâncreas artificial não me importo de ser a nº1 a testar. Só não gostei de usar a bomba de insulina. Fui cobaia, mas não gostei. Não vale a pena, não encontrei qualidade de vida.  

Não sei como está minha glicose agora. Muitas vezes penso: estou sozinha, será que amanhã consigo-me levantar e andar.”


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