Bailarina da periferia de Fortaleza enfrenta o diabetes enquanto sonha com dançar nos EUA

Enfrentando a diabetes, bailarina Amanda Lima supera adversidades para ir aos Estados Unidos participar de um dos festivais de dança mais importantes do mundo

O corpo ainda era um lugar para descobrir-se quando o talento para dança se manifestou em Amanda Lima. A mãe, Ivaneide Lima, percebeu que a menina tinha aptidão para a arte quando a filha ainda era criança, aos cinco anos, e a matriculou no balé em um projeto social no Jardim das Oliveiras, bairro onde a família mora, na periferia de Fortaleza. 

A cada aula, a menina tímida e de aparência frágil se transformava em uma bailarina com gestos bem finalizados e expressões fortes. O corpo eloquente gritava, transbordava a habilidade no tablado. 

O brilho dela despertou a atenção de profissionais ainda cedo. “Meu professor gostou de mim dançando. Ele fazia aula em uma escola de balé. Com menos de um ano, me levou lá e me deram bolsa”, relembra Amanda, hoje, aos 16 anos. 

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A adolescente ensaia de segunda à sábado, durante quatro horas por dia, sempre em busca de aperfeiçoar a técnica na dança

Entre saltos e pliés, o aprimoramento contínuo indicava o futuro promissor que já se desenhava. Porém, em ritmo acelerado de evolução na arte, ela descobriu que estava com uma doença crônica. “Comecei a ficar muito cansada nas danças. Bebia muita água, urinava muito. Tinha muita vontade de comer, dormir e ficava passando mal”, relembra. “Fui no posto de saúde e deu alterada a minha glicemia. A médica me encaminhou pro hospital e, lá, fiquei internada por cinco dias”. 

Vencer obstáculos

Diagnosticada com Diabetes Tipo 1 (DM1), Amanda teve que aprender a lidar com uma nova realidade, árdua desde o princípio. “Afetou minha visão por um tempo, logo no começo. Depois voltou ao normal”, conta ela e, nesse momento, deixa transparecer na voz a versão forte que apresenta nos palcos. 

O DM1 corresponde de 5% a 10% do total das pessoas com a doença no País, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). A patologia é caracterizada por uma produção insuficiente de insulina no pâncreas e atinge com mais frequência crianças, adolescentes e adultos jovens. Para um tratamento pleno, é necessário injeções cotidianas de insulina e hábitos saudáveis, com atividades físicas. 

A dança, então, ganhava outro status na rotina de Amanda. Além de estar presente pelo dom, ela também era fundamental para a qualidade de vida da jovem. Nem o incômodo de portar em tempo quase integral uma bombinha de insulina desanimou a adolescente. “Eu uso ela direto, até para dormir. Só tiro pra tomar banho e na hora da dança, às vezes, quando a coreografia exige demais”.

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Amanda descobriu o talento para o balé, ainda cedo, aos cinco anos. A dedicação à arte rendeu uma bolsa de estudos em uma escola tradicional da Capital

Convivendo com a doença há seis anos, ela não se limitou. Poucos meses depois de receber o diagnóstico, se submeteu a um teste de seleção para entrar no grupo de dança de um tradicional colégio de Fortaleza. “Passei pro grupo avançado e ganhei bolsa na escola”, orgulha-se. 

Lá, continuou a explorar o potencial em variadas vertentes da dança como no jazz, no sapateado, no balé e  no hip hop. Com o grupo já se apresentou em importantes festivais; desde o Passo de Arte, na capital cearense, até em competições de cidades paulistas, como Indaiatuba, e em Joinville, Santa Catarina, por exemplo. 

Os prêmios também se somam na bagagem da bailarina. “A gente participou de cinco festivais diferentes, em todos ganhamos com alguma coreografia”, relata os feitos recentes. 

Campanha 

O próximo desafio da equipe, composta por 24 bailarinos, é mostrar anos de trabalho e dedicação no The Dance Awards, no próximo dia 5 de julho, em Orlando, nos Estados Unidos. O concurso é realizado anualmente desde 2011, tido como um dos maiores eventos da área no país, e já revelou talentos de muitos jovens artistas .

As passagens aéreas para Amanda viajar a Orlando já estão garantidas, graças à doação da mãe de uma amiga da escola. No entanto, sem recursos financeiros, a mãe da menina lançou uma campanha nas redes sociais para conseguir custear hospedagem e alimentação.

Cheia de esperança, a adolescente segue nos ensaios, de segunda-feira ao sábado, durante quatro horas diárias. Amanda também faz planos, na espera que dê tudo certo. “Eu vou dançar duas coreografias em grupo, uma de jazz e uma de hip hop, e uma em duo. Na competição, além de ganhar medalha, troféu, a gente ganha bolsas de estudo. Fora isso, a gente vai fazer cursos com professores, se eles gostarem, também podem oferecer bolsas”, detalha. 

Fã declarada da brasileira Ana Botafogo, Amanda anseia “dar saltos tão altos” quanto a artista que foi primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro durante 34 anos e referência na arte.“ Eu sonho em entrar em uma companhia, conhecer mais estilos de danças. Passei a minha vida toda, desde que eu me lembre, dançando. Hoje, inclusive, também ajuda na diabetes, controla muito bem a doença, dá pra ver nos exames de glicemia. Eu me sinto muito bem quando estou no palco. Amo muito”. 


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