Diabetes – A ascensão das equipes multidisciplinares

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As doenças crônicas são um grande desafio da assistência em saúde atual. A International Diabetes Federation estima que, em 2040, caso a tendência atual não seja revertida, mais de 642 milhões de pessoas, entre 20 e 79 anos, irão viver com o diabetes no mundo. Hoje, já são 415 milhões, sendo cerca de 75% em países em desenvolvimento.

No manejo dessas condições, atuar em conjunto com profissionais de várias áreas é visto como necessidade crescente. O paciente, hoje, diferentemente do que ocorria no passado, tem múltiplas comorbidades identificadas – especialmente os pacientes idosos, no contexto das doenças crônicas. “É uma mudança de paradigma”, ressalta Evandro Tinoco.

O tratamento dessas enfermidades envolve um trabalho de planejamento na assistência ao paciente – no qual o médico precisa estar envolvido –, na escuta empática e no entendimento de que as outras áreas também têm uma vivência própria e que muito evoluiu. “É a visão de que a Medicina não é só o contexto biológico: as ciências comportamentais e as ciências sociais são muito importantes. Hoje, o conjunto de saberes traz diferentes olhares, que constroem essa visão nova da Medicina e da Saúde”, arremata o diretor de Qualidade Assistencial da SBC.

A presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Hermelinda Pedrosa, corrobora o cenário. “Não se deve centralizar todas as ações em cima da ação do médico”, alerta. Por vezes, o médico tem expertise em outras áreas, contudo, quando há um profissional especializado no assunto, deve-se recorrer a ele. “Por exemplo, a educação do paciente pode, em parte, ser feita pelo médico, mas também temos o educador em diabetes, que pode ser qualquer profissional, desde que receba uma capacitação para isso.

Educar é uma tarefa ampla, que envolve não só o repasse do conhecimento, mas a forma como esse repasse é feito”, detalha. Segundo a médica, na diabetologia, o movimento de descentralização do cuidado ainda é mais consolidado no exterior, sobretudo na Europa.

Essa noção se estende para cuidados de outras doenças, como o câncer. O diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Gustavo Fernandes, relata que a adaptação do oncologista às equipes multidisciplinares tem sido crescente, e é uma tendência ainda em avanço. “Todos os médicos vão ser compelidos, para ter um cuidado melhor com o paciente, a liderar equipes multidisciplinares”, projeta.

Assim como nas doenças crônicas, o paciente oncológico demanda cuidados que englobam ativamente uma série de outas especialidades, como Odontologia, Fisioterapia e Enfermagem. “É o paciente que impõe essa multidisciplinaridade”, explica.

A humildade de um líder

Para Gustavo Fernandes, ter a humildade de saber ouvir os outros profissionais é traço primordial. Sem essa abertura, os demais membros da equipe que atuam no cuidado ao paciente não podem colaborar da melhor forma. “A primeira característica que um líder de cuidado precisa ter é esta: ouvir e respeitar a opinião das pessoas que fazem parte do cuidado. É desenvolver uma percepção coletiva, e não apenas sua visão individual”, aponta.

Pelo tempo que passam com o paciente, bem como pelas especificidades de suas atuações, outros profissionais podem ter percepções acerca do quadro do paciente, diferentes das do médico – que deve considerá-las e ponderá-las. “Naturalmente, há outras características de liderança, como confiabilidade, ser acessível e demonstrar conhecimento de sua área e de outras áreas”, acrescenta Fernandes.

Para Francinaldo Gomes, além da capacidade de absorver novos conhecimentos, de estar em constante aprendizado e de ter uma visão global da assistência, o médico precisa ter paixão pelo que faz e saber motivar e valorizar os que estão a sua volta. “O médico precisa ser um exemplo a ser seguido pelos demais. Para isso, ele deve prezar pelo profissionalismo, pelo respeito e pela ética no exercício da Medicina”, conclui.

Multidisciplinaridade ou interdisciplinaridade?

A endocrinologista e presidente da SBD, Hermelinda Pedrosa, ressalta: multidisciplinaridade não significa necessariamente que haja uma natural interdisciplinaridade. É positivo que haja profissionais diversos buscando o bem-estar do paciente, que é o centro do cuidado; porém é preciso aprofundar-se. “Se não houver também a interdisciplinaridade, interação entre os profissionais, nem sempre a dinâmica vai ser positiva”, explica. O caminho rumo a esse cenário ideal passa, em grande parte, pela educação não só do paciente e dos familiares, mas dos próprios médicos e profissionais de saúde, para cristalizar a noção do paciente como ator principal dessa empreitada.


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