Antes de sermos loucos pela cura, devemos ser pela prevenção

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Em Mato Grosso, cerca de 185 mil pessoas têm diabetes tipos I e II. O primeiro tipo trata-se de uma herança genética (doença autoimune), enquanto o segundo tipo, mais comum e responsável por 70% dos casos, é quando o organismo não consegue usar adequadamente ou não produz insulina suficiente para controlar a taxa de açúcar no sangue.

De acordo com o Sistema de Informação de Mortalidade do Estado, entre 2005 e 2009, quase três mil pessoas morreram por causa da doença.

Segundo a endocrinologista Maria Luísa Trabachin, o tipo mais comum de diabetes (tipo II) pode ser combatido apenas com prevenção.

Endocrinologista Maria Luísa Trabachin explica sobre riscos da falta de tratamento

“Prevenção é tudo. A diabetes é uma doença que te pega pela boca. Você não vai se tornar um diabético se você se cuidar. O tipo I é uma mutação genética, mas o tipo II é totalmente mutável. É [resultado de] uma escolha”, afirma a médica.

Para a especialista, a prevenção pode ser feita por meio de mudança de estilo de vida, agregando exercícios físicos e uma alimentação saudável à rotina.

Ela ressalta que, atualmente, a inserção de alimentos industrializados e as facilidades do cotidiano têm feito com que a população coma cada dia mais carboidratos e faça menos exercícios.

“Antes de sermos loucos pela cura, devemos ser loucos pela prevenção. Eu tenho a prevenção na minha frente, então, por que não correr atrás dela?”, questiona.

Tipos de diabetes

A diabetes é dividida em dois tipos. O tipo I trata-se de uma doença com herança genética, quando o pâncreas deixa de produzir insulina, o que faz com que a taxa de açúcar no sangue aumente subitamente e de forma exagerada.

Já o tipo II, conforme a médica, é decorrente de maus hábitos do paciente, com a ingestão de grande quantidade de carboidratos, açúcares e falta de exercícios físicos.

“É a mais comum e mais fácil de tratar, mas tem um fator hereditário. Significa que tenho que ter um cuidado maior, mas não que a doença irá se desenvolver”, explica.

Diagnóstico

Para realizar o diagnóstico o paciente deve se submeter a um exame de glicemia – que pode ser feito com apenas uma gota de sangue. A conta é simples: se o resultado do índice glicêmico for de até 99, os níveis estão normais; entre 100 e 125, o diagnóstico é de pré-diabetes; acima de 126, o paciente já é considerado um diabético.

Maria Luisa Trabachin Endocrinologista
Médica explica teste feito para diagnóstico de diabetes

Após os exames, o paciente deve receber do médico especialista o tratamento mais adequado para sua faixa etária, estilo de vida e nível glicêmico.

“Vários estudos tentaram descobrir se o uso da medicação seria eficaz no período de glicemia alterada, mas não a nível de ser diabetes. E eles viram que algumas medicações auxiliam e postergam o processo, mas nada é comparado com a mudança no estilo de vida, com a prática de atividade física e dieta”, diz a médica.

A endocrinologista explica que a mudança no estilo de vida não significa abandonar completamente a ingestão de carboidrato e alimentos doces da dieta, mas consiste na redução das porções ingeridas.

“Quando você vê a fundo o que o paciente com diabetes ou pré-diabetes come, você percebe que no mesmo prato ele coloca arroz, mandioca, batata, farinha, e ainda repete o prato. Então, é muito carboidrato em uma refeição só, o que é um grande problema”, exemplifica.

Riscos da doença

A diabetes é um dos principais fatores para o amputamento de membros, cegueira e causas de falência renal, conforme a especialista.

Ela explica que, antigamente, quando a diabetes era descoberta, o médico pedia ao paciente para que adotasse mudanças no estilo de vida, voltando a verificar o índice glicêmico após três meses.

“Hoje, quando descobrimos o pré-diabetes ou a diabetes, indicamos a mudança no estilo de vida e já entramos com medicamento. Sabemos o quanto a glicose alta é tóxica para as células. É como deixar uma ‘brasinha’ acesa lá todo dia, e esperar para ver. Não pode. É preciso apagar logo”, alerta.

“Hoje somos implacáveis. Antigamente tinha a inércia no tratamento. Infelizmente, pegamos pacientes que evoluíram para complicação por conta da inércia”, completa.

A importância da disciplina

Maria Luisa Trabachin Endocrinologista
Medicamentos para controle de diabetes custam caro, segundo endocrinologista

Para o tratamento ter eficácia, é necessário que o paciente tenha disciplina tanto com as medicações quanto com a alimentação balanceada e a atividade física. Conforme a médica, casos de amputação de membros e cegueira ocorrem quando o paciente não trata adequadamente a doença.

“Se a glicose tiver a maior parte do tempo alterada, [as consequências] são certas. Agora, se você tem há 30 anos a doença, e sempre teve o controle ou descompensou de vez em quando, não. Tem um monte de diabético que teve a doença há anos e morreu de outra coisa, mas nada de diabetes”, afirma.

A diabetes é uma doença progressiva, ou seja, ela evolui com tempo, caso não sejam tomados os cuidados necessários.

“A doença não tem cura. Tem que ter disciplina alimentar, atividade física, tomar remédio todos os dias. Tudo que depende só [do esforço] da gente, não é fácil. É preciso ir ao médico, fazer exames. Não é porque está indo bem com uma medicação, que ela será eterna”, alerta a médica.

Para quem foi diagnosticado com diabetes, o indicado é ir ao médico ao menos duas vezes por ano, a menos que algum sintoma diferente se manifeste, como infecção urinária, formação de feridas na pele que não cicatrizam, sentir muita sede, muita fome ou cansaço e desânimo.

Medicamentos caros

Atualmente, o mercado farmacêutico conta com diversas classes de medicamentos que auxiliam no tratamento da diabetes. No entanto, os preços elevados desses medicamentos os deixam fora do alcance de grande parte da população

“Na rede pública, nós temos dois medicamentos orais apenas, e depois a gente já tem que recair na insulina, e isso é complicado. Porque muito precocemente você tem que ir para insulina. Na rede privada, ou para quem pode pagar, eu tenho um leque de medicamentos que podem ser usados antes de ir para insulina”, explica a médica.

A média mensal de gastos na rede privada pode chegar a R$ 500, enquanto que, na rede pública, as opções são tratamentos menos modernos, que são gratuitos.

“Os medicamentos são caros, custam em torno de R$ 150 a R$ 200. Eles são bem eficazes para diminuir a taxa de glicose, quando podemos utilizá-los. Mas aí o tratamento custa de R$ 400 ou R$ 500 por mês”, afirma.

Estudo em andamento

Uma pílula para tratamento de diabéticos que necessitam de insulina está em desenvolvimento, conforme publicação da revista Proceedings of the National Academy Society (PNAS). O medicamento, ainda em fase de testes em animais, promete ser uma alternativa para pacientes que necessitam, hoje, aplicar injeções diárias.

Segunda a médica, outros estudos já tentaram facilitar a vida do diabético e criar a pílula de insulina, no entanto, nenhum foi promissor.

“A nossa esperança é que descubram alguma coisa que realmente iniba o processo de degeneração do pâncreas e não deixe o paciente no pré-diabetes. Essa pílula é boa? É ótima. Tudo que possa ser lançado e possa facilitar a vida do paciente é melhor”, diz a especialista.

 

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