Uma carta aos meus pais

Queridos mãe e pai,

O dia em que fui diagnosticada foi difícil para todos nós, e eu não percebi o quão árduo seria para vocês dois à partir daí. Vocês provavelmente vão se lembrar muito melhor do que eu; Minhas lembranças nebulosas daqueles últimos momentos foram passadas assistindo mamãe chorando quando eu fui tirada de você para ser cuidada no hospital. Não me lembro de ter dito adeus a você, ou se lhe disse que te amava antes de ir, mas espero que sim.

Tenho a sensação de que estava inconsciente, ou muito perto disto, naquele momento e, infelizmente, a única coisa que me lembro foi da dor que eu estava experimentando; Meu pensamento egoísta naquele momento era saber quando aquela agonia iria terminar. Uma coisa que eu lembro é de estar confusa sobre o que acontecia, quando olhei para vocês, eu os via em preto e branco e mudos, como se estivéssemos em um filme antigo sem som ou legendas. Eu desejei nesse ponto que aquilo tudo fosse apenas um sonho ruim e que eu acordasse novamente em nosso quarto de hotel, pronta para voltar ao mundo como as coisas eram antes.

Minha próxima lembrança foi de estar sorrindo enquanto papai entrava na sala em que estava, que era parecida com um aquário de vidro, usando um avental de plástico, parecendo tão sério, que nem parecia ser papai. A coisa mais importante que se passava na minha mente naquela ocasião não era saber onde eu estava, ou o que tinha acontecido comigo, sobre os fios que estavam ligados a mim ou o que iria acontecer a seguir. Eu sentia que era muito importante dizer ao meu pai que a razão de eu não ter me saído tão bem em minhas aulas de Taekwondo foi porque eu estava muito doente, e não tinha conhecimento sobre isso. Eu não queria que você pensasse que eu o deixaria desapontado achando que tinha gasto tempo me levando para aulas e competições. Eu juro que eu não estava sendo preguiçosa, pai, eu estava inconscientemente, sendo desafiada pelo meu pâncreas.

O que se passou a seguir, numa breve retrospectiva, foram horríveis nove anos para vocês dois. Vocês sabiam que eu não estava cuidando de mim mesma da maneira que deveria, e apesar de perguntarem, de tentarem falar comigo sobre isso, eu me calei sobre este assunto por um longo tempo. É realmente triste pensar nisso, mas a razão pela qual eu o fiz foi porque eu não queria ser um fardo para vocês. Eu sentia que o diabetes não me fazia bem no dia a dia, e não queria que vocês sentissem a mesma tensão que eu estava experimentando.

Eu sustentei este personagem adolescente independente e forte por um longo tempo, mas quando a máscara caiu e eu precisei, vocês estavam sempre ao meu lado. Vocês sempre me levavam para o hospital quando eu estava perigosamente indisposta, quando minhas forças se esvaíam e não havia maneira de continuar fingindo que estava tudo bem. Vocês sempre estiveram lá na minha cabeceira segurando minha mão enquanto tirava o sangue para exames com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Vocês seguraram meus cabelos para trás enquanto vomitava e falavam em meu nome para as enfermeiras e médicos quando eu estava muito indisposta para fazê-lo sozinha. Vocês me levavam para casa e cuidavam de mim, compravam a minha comida favorita quando eu estava bem o suficiente para começar a comer novamente, estavam ao meu lado quando tive recaídas. Vocês nunca desistiram de mim.

Mesmo quando era uma adolescente terrível vocês sempre me disseram que eu os deixavam orgulhosos e me incentivavam a ficar ainda melhor. Agora que cresci, continuam a me incentivar para me manter no caminho certo. Vocês me ajudaram com o tratamento a laser nos meus olhos, durante as operações e consultas extra hospitalares. Vocês me ensinaram o que é realmente ser uma pessoa forte e independente através de suas próprias forças e eu fiquei melhor por causa disso, não apenas fisicamente, mas também mentalmente.

Mesmo agora, com 31 anos de idade, vocês são as primeiras pessoas a quem irei procurar quando precisar de ajuda. Dois dias atrás, quando me encontrava doente, vocês foram as pessoas a quem liguei. Eu freneticamente tentei encontrá-los para dizer que eu poderia precisar de vocês de novo e vocês me disseram que parariam tudo que estavam fazendo para ficar à minha disposição. Embora eu tenha sempre precisado bastante, vocês nunca desistiram de mim e sei que um dia eu vou pagar o favor.

Diabetes não mudou apenas a minha vida naquele dia em 2002, mudou a vida de toda a nossa família. Eu pareço estar em um passeio de montanha-russa que nunca termina, mas espero que depois de tudo o que aconteceu, possamos começar a apreciá-lo juntos.

 

Laura

 

http://diabetestimes.co.uk/

PS do Editor TiaBeth:

Quem estiver interessado em conhecer o blog pessoal da autora, basta clicar aqui.

http://ninjabetic1.blogspot.com.br/p/home.html

 


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