O Monge e a Nutricionista

Recentemente tive o prazer de conhecer o Lama Rinchen Khyenrab, monge ordenado pela tradição Sakya do budismo tibetano e Lama residente do Mosteiro Sakya em Cabreúva, interior de São Paulo, onde se ensina o Dharma (filosofia, psicologia e meditação).

Meu primeiro contato com ele foi numa palestra em que ele tratou do Mindfull eating (Comer consciente) e apresentou o conceito do Integrativo, de se pensar o Universo como um todo. A relação entre nossa alimentação, nossa saúde física, mental e espiritual. O modo como o ser humano se relaciona consigo mesmo e com os outros.

Em seus ensinamentos, o Lama trata de questões práticas do cotidiano: como encarar a agitação e competitividade com a mente mais tranquila e focada? E apresenta soluções:

  1. o primeiro passo é compreender que se tem um “meio ambiente mental”;
  2. o segundo é aspirar a sua transformação;
  3. o terceiro é aprender a identificar os hábitos mentais que geram o estresse, as angústias, a ansiedade, a dificuldade de relacionamento e assim por diante.

O resultado – explica o Lama –  é o resgate dos valores humanos básicos, estado em que o indivíduo se reconhece como parte de um todo, vivencia a interdependência dos fenômenos e se sente feliz na medida em que gera a felicidade aos outros.

Nessa direção, acredito que a meditação seja um importante instrumento para desacelerar o cotidiano, muitas vezes insano. Inclusive como apoio para se controlar as doenças crônicas não transmissíveis (hipertensão, diabetes, depressão etc.). Que fique claro: não me refiro à substituição de terapias medicamentosas e sim apoio.

Por fim, quero terminar essas reflexões com um texto que o Lama Rinchen usou em sua palestra, citando o filósofo e pedagogo espanhol Jorge Larrosa Bondía: “a experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”.

No que eu acrescentaria: parar para comer, comer mais devagar, sentir mais o sabor do que se come. Refletir sobre o que se come. Agradecer o que se come.

 

Roberta Cassani – Doutora em Investigação Biomédica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), pesquisadora e colaboradora do Laboratório de Genômica Nutricional da UNICAMP e especialista em Nutrição em Cardiologia pela Sociedade de Cardiologia (SP)

 

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