Combatendo o diabetes através do exemplo

A decoração do escritório de Eric L. Adams, prefeito do município do Brooklyn, não é nada comum: tem uma geladeira cheia de frutas frescas e legumes, uma bancada onde ele prepara e combina esses ingredientes para suas refeições e lanches, e um forno e uma chapa quente onde as prepara.

Na antessala adjacente, há uma bicicleta ergométrica, pesos, um conjunto de aparelhos de musculação e um sistema de suspensão por cordas pendurado na porta. Seu laptop fica em uma espécie de suporte de partituras, assim ele pode usá-lo enquanto pratica step.

No ano passado, Adams descobriu, durante um check-up por causa de uma dor abdominal, que tinha diabetes tipo 2. Contou que o nível médio de açúcar em seu sangue era tão alto que o médico ficou surpreso por ele não ter entrado em coma. Seu nível de hemoglobina A1C – exame de laboratório que mostra o nível médio de glicose sanguínea durante três meses anteriores – era de 17 por cento, três vezes maior que o normal. Ele não perdeu tempo para embarcar na luta fervorosa contra a doença. Desprezando a tendência americana do tratamento com medicação, preferiu explorar a habilidade do corpo de se curar.

Adams, capitão de polícia aposentado de 56 anos, precisa agora de uma nova foto publicitária, pois já não se parece com a imagem rechonchuda das fotos oficiais. Através da adoção de uma dieta vegana, do preparo das próprias refeições e da inclusão de exercícios físicos na rotina diária, ele perdeu 13,6 kg e reverteu completamente seu diabetes – distúrbio do pâncreas que pode levar a ataques cardíacos, acidente vascular cerebral, lesões nervosas, doença renal, perda visual e comprometimento cognitivo. Em três meses, seu nível de A1C caiu para 5,7, índice considerado normal.

Agora, ele se dedica a informar seus milhões de eleitores sobre como combater essa doença que nos rouba a saúde e a vida e que atingiu proporções epidêmicas nos EUA, mesmo entre as crianças. Começando no trabalho, tirou a máquina de bebidas açucaradas Brooklyn Borough Hall e a máquina de petiscos, onde todos eram preparados em óleo ou adoçados artificialmente. Aqueles que procuram um estímulo podem desfrutar de água com ou sem gás, refrigerantes diet, nozes, frutas secas, barras de proteína e batatas chips cozidas.

“Adorava sal e açúcar e frequentemente comia doces para reanimar quando me sentia letárgico, mas descobri que o paladar humano é incrivelmente adaptável, e depois de duas semanas sem sal ou açúcar, já não sentia necessidade deles”, contou Adams. Com seu novo estilo de vida, disse que tem tanta energia que já não precisa de um estimulante no meio do dia.

Ele também faz seu próprio “sorvete” – na verdade, um sorbet de frutas feito com um aparelho chamado Yonanas, que pode preparar doces gelados só com frutas, iogurte sem laticínio e sem adoçantes. Tenho o mesmo aparelho – e o adoro; muitas vezes sirvo sobremesas de frutas, para o deleite de meus convidados.

Adams agora não come nada “que tenha cara, mãe ou pai”, mas sabe que a maioria das pessoas em risco de diabetes tipo 2 não vai abandonar todos os alimentos de origem animal, açúcar e farinhas refinadas ou se tornar fanática por exercícios. “Mas temos que encontrar um modo de afastá-las de seus maus hábitos alimentares, da mesma forma que podemos afastá-las das drogas viciantes, e incluir a atividade física em seu dia a dia.”

Um novo estudo sobre os danos da vida sedentária, publicado no periódico Diabetologia, mostrou que interromper o período sentado com curtos momentos em pé e caminhadas de baixa intensidade é ainda mais eficaz do que uma quantidade equivalente de exercício tradicional concentrado (no caso do estudo, ciclismo) para controlar o açúcar no sangue de pacientes com diabetes tipo 2.

Em vez de fazer proselitismo, Adams prefere ensinar dando exemplo, apresentando alimentos saudáveis e dando informações úteis às pessoas. “Não quero virar um vegano chato. O que espero é que, quando as pessoas tentem adicionar coisas saudáveis ao prato, em vez de optar por coisas pouco saudáveis, acabem dando espaço só para as saudáveis.”

Adams espera incentivar mais pessoas a fazer “mudanças razoáveis” no modo em que se alimentam e se exercitam através de várias iniciativas, incluindo um boletim informativo, um livro de receitas, eventos comunitários e corporativos que envolvam uma alimentação saudável, palestras e panfletos distribuídos ao público em estações de trem. Além disso, está planejando uma competição nas escolas para que os alunos identifiquem a maneira mais eficaz de levar alimentos da horta ao prato.

“Em cada evento, falo sobre como a saúde é fundamental para nossa prosperidade”, disse ele. As alterações que fez em seus hábitos alimentares e em seus exercícios conseguiram muito mais do que reverter o diabetes. “Todos os meus números melhoraram em apenas três meses”, disse ele, incluindo pressão arterial e níveis de colesterol, que estão agora na faixa recomendada, diminuindo assim o risco de doença cardíaca e derrame.

Ele lamenta a dependência da maioria dos americanos de alimentos processados e refeições preparadas por lojas e restaurantes, cheios de ingredientes nada saudáveis. Consumir esses alimentos pode não só ser ruim para sua saúde, mas também priva as pessoas de uma relação “espiritual” com o que estão comendo, disse ele. “Nunca cozinhei antes; agora adoro cozinhar, e acabei ficando bem criativo nessa área.” Ele aprendeu a adicionar especiarias como canela, orégano e açafrão a muitos pratos que prepara. “A comida deve ser agradável e ter gosto bom e isso é possível sem o uso de açúcar, sal ou gordura”, afirma.

A maioria dos pacientes com diabetes tipo 2, a forma mais comum da doença, toma remédios para reduzir o açúcar no sangue liberado pelo fígado e aumentar a sensibilidade do corpo à insulina, mas mesmo que não haja nenhuma cura conhecida para o mal, o estilo de vida pode ter um grande impacto. Vários estudos já demonstraram que perder peso (para aqueles que estão acima do peso), ter uma dieta baixa em carboidratos refinados e açúcar, e ser mais ativo pode reduzir a dependência de medicamentos e às vezes eliminá-los totalmente.

A perda de apenas 5 a 10 por cento do peso corporal consegue muitas vezes controlar a doença para quem está acima do peso. Entre os obesos, a dieta de baixas caloria ou a redução extrema do peso através de cirurgia bariátrica frequentemente reverte o quadro. Em um pequeno estudo na Inglaterra, o diabetes tipo 2 entrou em remissão em quase metade dos que consumiram uma dieta líquida de baixa caloria por oito semanas, mantendo-se por seis meses depois que voltaram a comer normalmente.

No entanto, para a maioria, as alterações de hábitos alimentares e de exercício para controlar ou reverter o diabetes deve ser mantida indefinidamente.

 

Por Jane E. Brody

 

http://zh.clicrbs.com.br/


Similar Posts

Topo