Novo remédio para emagrecer é questionado por médicos

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Assim como diabetes e hipertensão arterial, a obesidade é uma doença crônica que pode ser a porta de entrada para outras enfermidades mais graves. Segundo médicos, ainda não existem medicamentos que tratem a doença com eficiência e segurança para uso crônico, ou seja, continuamente. Porém, no início do ano, a Anvisa autorizou a comercialização do mais novo rótulo que propõe tratar a obesidade, o Saxenda, o primeiro aceito para esse tipo de problema desde 1998, mas que também gera questionamento por parte de especialistas da área.

A medicação, que custa cerca de R$ 700, tem efeitos colaterais apenas periféricos. Embora acreditem que a introdução da droga no mercado seja um avanço, médicos advertem que ainda não se trata da cura. “Não existe comprovação de segurança no uso da Saxenda em longo prazo, mostrando que o dano é menor que o benefício”, disse o endocrinologista Paulo Tannus, professor da Faculdade de Medicina da UFU.

O médico Márcio Alves receita Saxenda em casos específicos
O médico Márcio Alves receita Saxenda em casos específicos

O princípio da Saxenda é a liraglutida, que já era usada no Brasil para tratar diabetes com o nome de Victoza. Mas segundo Tannus, a dose do novo remédio é quase o dobro para tratar obesos com mais de 30 de Índice de Massa Corpórea (IMC) ou mais de 27 de IMC com alguma comorbidade, como diabetes, colesterol, hipertensão, alteração da gordura no sangue (dislipidemia) e apneia do sono.

Segundo o nutrólogo Márcio Henrique Alves, o medicamento atua em três níveis. “A liraglutida imita o hormônio do intestino, chamado GLP1, produzido pelo órgão quando entra em contato com nutrientes, que envia ao cérebro a mensagem de saciedade. Além disso, diminui o esvaziamento do estômago, o que faz a pessoa comer menos, e controla a glicose no sangue somente quando está alta”, diz Alves.

A Saxenda, segundo os especialistas, oferece efeitos colaterais mais amenos que os demais medicamentos disponíveis no mercado, que são a Sibutramina e o Xenical. “Os efeitos mais comuns são náusea e sensação de lentidão na digestão. Menos comuns são vômito e diarreia. Raros casos de pancreatite também foram relatados. Por isso, o uso de remédios exige acompanhamento médico para monitoramento e sua indicação deve ser feita apenas nos casos em que o plano alimentar e o exercício físico são muito difíceis para o paciente”, afirmou Alves.

Ainda conforme Tannus, a nova droga não é milagrosa. Segundo ele, a perda de peso estimada é variável de acordo com cada trabalho científico, mas é algo como acrescentar de 2 a 7 kg na quantidade de peso que se perderia com a mudança de estilo de vida. Ainda de acordo com o endocrinologista, o alto custo do remédio também deve ser considerado. “Uma caixa contém três canetas aplicadoras, que estimo ter seis doses cada. Para um mês, o paciente vai precisar de mais duas aplicações, gastando mais de R$ 1 mil”, disse Tannus.

Experiência

arte-obesidadeA auxiliar administrativa Ludmila Lindemberg, de 30 anos, começou a usar o Saxenda há um mês, com acompanhamento médico. “Sempre fui gordinha, mas nunca tinha chegado aos 88 kg. O remédio me tira a fome completamente e, quando me alimento, por menos que seja, parece que comi um boi”, afirmou Ludmila Lindemberg, que emagreceu 3,5 kg nas primeiras três semanas de uso. Ela disse que quase não sentiu efeitos colaterais. “Para não dizer que não senti nada, no início, o estômago embrulhava depois do almoço”, disse a auxiliar, que também segue um plano alimentar hipoglicêmico e faz caminhada e musculação.

Pequenas perdas de peso trazem grandes ganhos

O tratamento da obesidade se baseia na mudança de hábito alimentar, inserção de exercícios físicos e ainda mudança de estilo de vida, segundo o endocrinologista Paulo Tannus. “Não está baseado em tomar medicamentos. Porém o médico e o paciente têm que saber que os objetivos não podem ser ambiciosos, a não ser que o tratamento seja bariátrico”, disse Paulo Tannus.

O especialista também alerta que as pessoas têm que se contentar com perdas modestas de peso. “A Organização Mundial de Saúde considera como satisfatório a perda de algo em torno de 5% a 10% do peso, desde que a pessoa mantenha o peso. Para perder mais, ela precisa restringir ainda mais alimentação e aumentar os exercícios. A boa notícia é que pequenas perdas de peso trazem grandes benefícios para a saúde, como melhora do colesterol bom HDL, pressão normalizada, reversão de uma glicemia pré-diabetes, redução da circunferência da barriga etc.”, disse Tannus.

Reportagem consegue produtos no mercado negro

O médico Paulo Tannus disse que as pessoas precisam se contentar com pequenas perdas
O médico Paulo Tannus disse que as pessoas precisam se contentar com pequenas perdas

Preso por vender medicamentos para emagrecer sem registro na Anvisa, um homem foi surpreendido em Uberlândia, no último dia 31, com 23 frascos de Harp 100 mg e 79 frascos de Moder Diet Golg, que negociava no Facebook. Na rede social, a reportagem do CORREIO DE Uberlândia encontrou 11 anúncios do fitoterápico em um único grupo, vendido por R$ 90 a R$ 150.

Abordadas para a compra de Moder Diet, cinco mulheres confirmaram vender o produto. “Não precisa de receita. Foi proibido há muito tempo, porque é remédio natural. Tenho um fornecedor aqui em Uberlândia que me entrega. Ele vem de Santa Catarina”, disse uma delas, que vende a caixa por R$ 130 à vista e por R$ 140 no cartão de crédito, com entrega inclusa.

A reportagem do CORREIO também negociou a compra de Sibutramina, por meio de anúncio publicado no mesmo grupo. “Eu fui à médica, ela me passou a Sibutramina por dois mês. Eu comprei as duas no cartão. Como estou apertada, vou vender uma. Aí, mês que vem, eu consulto de novo. Mês passado, perdi 7 kg”, disse a mulher.

É possível comprar fórmulas sem receita médica

Entre os medicamentos que prometem tratar a obesidade, está a Sibutramina, receitada no Brasil apenas mediante a assinatura de termo de responsabilidade pelo paciente, já que a medicação termogênica banida nos Estados Unidos, União Europeia e Canadá oferece risco cardiovascular. Porém existe um vasto mercado negro onde medicações como esta circulam sem restrições.

Uma mulher de 27 anos, que não quis se identificar, fez uso da droga durante um mês, sem indicação e acompanhamento de especialista. “Eu pesava 63 kg e perdi 5 kg em 30 dias. Mas, quando parei de tomar o remédio, meu peso não apenas voltou, como quase dobrou. Passei a pesar cerca de 67 kg”, afirmou a mulher.

A estudante Tatiana Etiene de Souza, de 28 anos, fez uso do Moder Diet durante um mês, que é proibido pela Anvisa. Na época, ela tinha IMC de 36,1, que indica obesidade. “Comprei o remédio com facilidade, pagando R$ 120, mas não perdi nem 1 kg. Tive apenas muita dor de cabeça e tontura”, disse Tatiana de Souza.

 

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