Charlie, o robô, é o mais novo amigo das crianças com diabetes

Projecto financiado com quatro milhões de euros pela União Europeia está em fase de testes na Holanda e na Alemanha.
Projeto financiado com quatro milhões de euros pela União Europeia está em fase de testes na Holanda e na Alemanha.

Ruben tem sete anos e já é capaz de medir a sua taxa de glicose no sangue e de contar o açúcar num copo de leite, tudo isto graças ao seu novo amigo Charlie, o robô. “O que fazer se você se sentir mal?”, pergunta, com a sua voz aguda e mecânica, o pequeno robô vermelho e branco durante uma sessão de jogos sobre a hipoglicemia, quando a taxa de açúcar no sangue fica demasiado baixa.

Com este robô que fala e dança, o menino de cabelos loiros, diagnosticado com diabetes há um ano, aprende a calcular os dados que lhe podem salvar a vida. Charlie é o resultado de uma colaboração entre profissionais de saúde, engenheiros de robótica e acadêmicos dos Países Baixos, Itália, Alemanha e Grã-Bretanha, e poderá em breve tornar-se o treinador de muitas crianças com diabetes tipo 1.

A Holanda tem cerca de 6000 jovens diabéticos e todos os anos pelo menos uma criança morre por causa da doença. Em Portugal estão registadas no Serviço Nacional de Saúde mais de três mil crianças, entre 0 e os 19 anos, com diabetes do tipo 1.  “Uma criança doente e sua família pensam na diabetes a cada dez ou 15 minutos”, disse à AFP Gert Jan van der Burg, pediatra no hospital Gelderse Vallei em Ede, no centro da Holanda.

Uma festa de aniversário, uma opção por fast-food, uma atividade desportiva ou um simples jogo de vídeo pode rapidamente fazer subir ou cair o nível de açúcar no sangue.

Numa pessoa com diabetes do tipo 1, o pâncreas deixa de produzir insulina, que é essencial para o corpo ter energia. E a única maneira de controlar a doença é tomar insulina, por injeção ou usando uma bomba.

Assim, os pais, mas também as próprias crianças, devem decidir, medir, calcular as injeções de insulina, os níveis de açúcar no sangue e a ingestão de carboidratos. Um erro na dose pode causar suores, tonturas e distúrbios comportamentais, ou mesmo coma.

Até agora, 40 crianças encontraram este novo amigo Charlie, que ainda está em fase de testes na Holanda. É o primeiro passo de um projeto de quatro anos financiado pela União Europeia e lançado em Março de 2015. Os testes também estão ocorrendo na Itália.

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Um amigo para ouvir

Projetado para crianças de 7 a 14 anos, o robô de olhos redondos e alto falantes no lugar das orelhas pede respostas de “verdadeiro ou falso” para questões colocadas através de um tablet. Os criadores de Charlie querem “desenvolver um novo tipo de personagem que ajude as crianças a lidar com a doença, ensine sobre diabetes e sobre os efeitos do exercício e comida”, disse à AFP Mark Neerincx, uma pesquisadora na Universidade Técnica de Delft.

Intitulado “assistente pessoal para um estilo de vida saudável” (PAL, na sigla em inglês, que significa também “amigo”), o projeto de quatro milhões de euros é desenvolvido pela Organização Holandesa para Pesquisa em Ciência Aplicada (TNO), por entidades do mesmo gênero na Itália e Alemanha (FCSR e DFKI, respectivamente), pelo Delft University e pelo Imperial College de Londres.

Suportando este “fardo pesado” da doença, as crianças estão conscientes que são diferentes e podem expressar os seus sentimentos e contar as suas histórias ao robô de rosto amigável que, por sua vez, cria um perfil para cada um dos doentes e, assim, aprende a conhecê-los.

“Charlie é simpático, e me faz perguntas sobre mim mesma”, diz com um sorriso no rosto, Sofiye Boyuksimsek, que tem 10 anos e foi diagnosticada com diabetes há dois.

Ainda em fase de testes, o mais novo amigo das crianças ainda está aprendendo a avaliar melhor as necessidades destes doentes e dos seus pais e deverá tentar transformar as suas interações em verdadeiras conversas.

“Não só as crianças querem aprender mais sobre a diabetes, mas para eles uma pequena conversa com o robô tem algo de muito valioso”, concluiu Olivier Blanson Henekemans, pesquisador da organização holandesa TNO.

 

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