Diabetes tipo 1 não tira a independência do paulista Vicktor

Vicktor com sua companheira guitarra.

No dia 14 de novembro de 2010, acordei com uma câimbra muito forte na perna. Eu não conseguia mexer um dedo sem que ele voltasse dolorosamente. Já faziam alguns dias que eu não estava me sentindo bem. Dores nas pernas, pontadas na barriga, um sono que não passava de jeito algum, mas foi por causa de meu peso que eu procurei ajuda: em dois meses eu passei de 72 para 48 quilos.

Ao me consultar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), uma enfermeira me fez algumas perguntas, pegou um aparelho, tirou uma gota de sangue do meu dedo… e sorriu. Perguntou quantos diabéticos eu tinha na família e quando respondi que nenhum, ela me disse: “Você ganhou na loteria” me mostrando o número 569 naquilo que viria a se tornar um de meus melhores amigos, o glicosímetro. Me lembro de ter-lhe perguntado o que eu precisava fazer e quando iria ficar bom quando então ouvi uma longa palestra que poderia ter se resumido em uma única palavra: “nunca”.

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Vicktor, à esquerda, antes do diagnóstico. Clique para ampliar

Na ocasião, fui diagnosticado como tendo diabetes do tipo 2 e comecei o tratamento com sulfonilureia e total restrição alimentar, sem ainda ter ideia do que aquilo representaria para mim. Até então, meus conhecimentos sobre diabetes se resumiam considerá-la uma doença de “velhos e gordos que perdiam a perna”.

Eu moro sozinho desde muito jovem, e com o tempo você percebe não poder viver de miojo e Coca-Cola apenas. Procurava fazer uma dieta equilibrada com verduras, legumes e carnes. Por causa disso, ao estudar um pouco a DM, percebi que o diagnóstico de tipo 2 não fazia sentido. Como uma pessoa de 70 kg, praticante de esportes, 25 anos de idade poderia desenvolver uma doença que afeta pessoas exatamente opostas a mim?

Procurei então um especialista que após bateria de exames me fez um segundo diagnóstico: DM Tipo 1 – LADA. Passei a tomar insulina imediatamente (nos 6 meses anteriores de tratamento eu nem havia tocado numa seringa e minha glicemia não chegava a menos de 300). O endocrinologista explicou-me que os remédios que eu estava tomando reduziram muito a minha “lua de mel”, acabaram com minhas células beta e que seria preciso me preparar para uma nova rotina em que exames de ponta-de-dedo, insulina, água e exercícios seriam imprescindíveis.

Não foi a insulina que me devolveu a saúde. A disciplina fez isso.

Vicktor ao lado de sua mãe
Vicktor ao lado de sua mãe.

Levanto cedo e aplico diariamente 18 UI de Lantus pela manhã, meço a glicemia pelo menos umas 6 vezes ao dia e arrumo disposição para fazer 1 hora de exercício diariamente. Esse esforço compensa quando comparo meu vigor, minha saúde, com a de muitos de meus amigos. Aí percebo que estou em grande vantagem, e digo isso sem hipocrisia alguma. Eles estão sempre indispostos, doentes ou reclamando de alguma coisa.

Não vou mentir, no começo eu sofri muito com a diabetes. Caí em depressão, quase larguei meu trabalho, desfiz inúmeras amizades porque simplesmente não aceitava ter alguma coisa que fosse incurável. Pensava sempre porque, com sete bilhões de pessoas no mundo, eu tinha que ser escolhido?!

Este pensamento mesquinho e mais fatos angustiantes de minha vida daquele momento, me levaram a um enfarte aos 26 anos de idade. Eu estava em casa e me lembro perfeitamente. Tomava um vinho encostado na pia quando de repente fiquei sem ar. Fui me abaixando devido a uma pressão cada vez mais forte. Por sorte, alguém do meu condomínio chamou a ambulância e tudo se resolveu.

Numa outra ocasião, estando em uma reunião de trabalho no Gabinete do Governador em São Paulo, tive uma hipoglicemia. Meu nível de glicose caiu para 45 e eu, iniciante no assunto, fiquei com vergonha de pedir um pouco de água com açúcar.

Ter diabetes não significa restringir o alimento, mas sim restringir a quantidade do alimento

Acredito que conhecer a linguagem do corpo, respeitar os limites, respeitar os horários, aplicar a insulina e se monitorar, não nos torna iguais a ninguém, mas nos dá liberdade para termos uma qualidade de vida que a grande maioria das pessoas, mesmo sem diabetes, não tem.

Hoje continuo a morar sozinho e admito que fiquei um pouco preocupado no começo. Mas não enxergo a diabetes como delimitadora e nem a considero uma doença agressiva, porém sei que nossos descuidos com ela é que são prejudiciais. Também sei que a informação é, sem dúvida, a nossa maior arma. Por isso optei por continuar morando sozinho. Além de liberdade, me trouxe uma real independência. Não se trata de não ter com quem contar, mas sim de saber que eu posso contar comigo mesmo.

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Vicktor Hugo Flores é Consultor Político e atualmente mora em Jundiaí (SP). Ele é faixa preta em Keysi e tem o 2º Dan em Muay Thai.

Autor convidado por TiaBeth.com. Reprodução livre.


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