Pesquisadores buscam remédio contra as doenças da velhice

Foto de Fernandozhiminaicela.

Alguns dos principais pesquisadores do envelhecimento nos Estados Unidos estão tentando realizar uma experiência clínica incomum.

Eles querem testar uma pílula que pode evitar ou adiar algumas das enfermidades mais debilitantes da velhice, como o Alzheimer e as doenças cardiovasculares. O foco do projeto não é prolongar a longevidade, embora isso possa ocorrer, mas tornar os últimos anos ou décadas da vida das pessoas mais satisfatórios ao adiar o surgimento de muitas doenças crônicas.

O projeto pretende utilizar um volume cada vez maior de pesquisas sobre o envelhecimento, que têm revelado cinco ou mais remédios que parecem atrasar o processo de envelhecimento em experimentos laboratoriais com animais e estudos feitos a partir da observação de pessoas. Alguns dos remédios reduzem a incidência das doenças crônicas associadas à velhice.

“Envelhecer é um grande fator de risco para todas essas doenças — do coração, câncer, diabetes e Alzheimer”, diz Nir Barzilai, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Envelhecimento da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, e coordenador do estudo proposto. “Se você quer produzir um impacto real, você tem que modular o risco do envelhecimento e, com isso, o risco de todas as doenças que aparecem com o envelhecimento.”

Barzilai espera inscrever mais de 1 mil participantes idosos no experimento clínico controlado e aleatório que será realizado em vários centros de pesquisa durante cinco a sete anos. O projeto está em seus estágios iniciais e um financiamento permanente ainda não está garantido. Recursos para a fase de planejamento vieram da Federação Americana para Pesquisa sobre Envelhecimento (Afar, na sigla em inglês), uma organização sem fins lucrativos da qual Barzilai é vice-diretor científico.

A experiência pretende testar a metformina, uma droga comum frequentemente usada para tratar diabetes do tipo 2, e verificar se ela pode adiar ou evitar o surgimento de outras doenças crônicas. (O projeto está sendo chamado Mirando/Domando o Envelhecimento com Metformina, em tradução livre, ou TAME, na sigla em inglês.) A metformina não é necessariamente mais promissora do que outras drogas que demonstraram sinais de que podem prolongar a vida e reduzir doenças crônicas relacionadas à idade. Mas ela vem sendo usada amplamente e de forma segura por mais de 60 anos, tem muito poucos efeitos colaterais e é barata.

Os cientistas dizem que se o TAME for um estudo de grande escala e bem concebido, a Food and Drug Administration, agência que regula alimentos e remédios nos Estados Unidos, pode ser persuadida a considerar o envelhecimento como uma condição que pode ser evitada, uma decisão que pode levar os fabricantes de remédios a mirar fatores que contribuem para o envelhecimento.

Os pesquisadores americanos Jill Crandall (esq.) e Nir Barzilai participam de um projeto que pretende testar uma droga que poderia prevenir ou adiar doenças típicas da velhice, como Alzheimer e diabetes.
Os pesquisadores americanos Jill Crandall (esq.) e Nir Barzilai participam de um projeto que pretende testar uma droga que poderia prevenir ou adiar doenças típicas da velhice, como Alzheimer e diabetes.

Um estudo que ajudou a convencer os geriatras a iniciar o projeto TAME foi realizado no Reino Unido e publicado no ano passado na revista “Diabetes, Obesidade e Metabolismo”. Os pesquisadores usaram dados de um registro nacional de mais de 180 mil pessoas, comparando tratamentos com metformina e sulfonilureia, outro remédio utilizado no combate à diabete. Eles também criaram dois grupos de controle para pessoas não diabéticas.

As pessoas que tomaram metformina viveram mais que aquelas que tomaram sulfonilureia, revelou o estudo. Além disso, as pessoas com diabetes e que tinham entre 71 e 75 anos de idade no início do experimento e tomaram metformina registraram uma taxa de sobrevivência 15% superior ao do grupo de controle de não diabéticos. “Estudos observacionais como esse nunca são definitivos”, diz Jill Crandall, diretora da Unidade de Teste Clínicos de Diabetes da Faculdade de Medicina Albert Einstein e membro da equipe de planejamento do TAME.

“Mas é uma das observações que certamente apoiam nossa hipótese — que certas intervenções farmacológicas, como a metformina, podem ter grandes efeitos na melhoria e manutenção da saúde por mais tempo.”

Crandall também participou de um estudo que foi financiado pelo governo americano e concluiu que a metformina e mudanças de estilo de vida são eficazes para protelar o diabetes em pelo menos dez anos nas pessoas com alto risco de contrair a doença. Dados do estudo, que acompanhou mais de 3 mil adultos por 15 anos, agora estão sendo analisados para verificar se o uso de metformina no longo prazo evita o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e do câncer e o declínio cognitivo e das funções físicas. Os resultados podem ajudar no planejamento do estudo do TAME, diz ela.

Combater cada grande doença da velhice separadamente não é possível, diz S. Jay Olshansky, outro planejador do TAME e professor da faculdade de saúde pública da Universidade de Illinois, em Chicago. “Reduzimos o risco de doenças do coração e, aí, alguém vive mais tempo o suficiente para ter câncer. Se reduzimos o risco do câncer, alguém vive mais tempo o suficiente para ter Alzheimer.”

“Estamos sugerindo que chegou a hora de atacar todas elas mirando o processo biológico do envelhecimento”, diz Olshansky.

Sandy Walsh, porta-voz da FDA, diz que a posição da agência é que “envelhecer” não é doença. “Temos aprovado remédios que tratam as consequências do envelhecimento”, diz ela. Embora a FDA atualmente esteja inclinada a tratar as doenças comuns na velhice como condições médicas separadas, “se alguém do setor de desenvolvimento de remédios descobrir algo que trate todas elas, nós podemos rever nosso raciocínio”, diz ela.

Outros especialistas concordam com o objetivo de protelar as doenças crônicas nos idosos, mas questionam se remédios são a melhor forma de fazer isso. “Envelhecer é muito complexo e provavelmente precisará de uma abordagem multifacetada para ajudar as pessoas a garantir que vão envelhecer de forma saudável”, diz Alicia Arbaje, geriatra e professora assistente de medicina da Faculdade de Medicina John Hopkins. Ela não está participando do projeto TAME.

Intervenções eficazes para atrasar o envelhecimento já existem, observa Arbaje, como exercícios, nutrição, engajamento social, redução do estresse e sono adequado. “Essas são formas confiáveis e eficazes para manter as pessoas saudáveis enquanto envelhecem”, diz ela. “O problema é que não é tão fácil como tomar um remédio.”

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