Edward Damiano – Ele fez um pâncreas para o filho com diabetes tipo I

O que mais assustava Edward Damiano era ver o filho a dormir. David tem um sono profundo, e o mais certo é que não se apercebesse do nível de açúcar demasiado baixo no sangue. Assim, Edward e a mulher faziam o esforço de acordar todas as noites, três a quatro vezes, para lhe picar o dedo, ou para lhe dar um sumo enquanto dormia. Mas sempre que via o filho afundado na almofada, o pai continuava a recear: e quando fosse para a faculdade, como seria?

Já passou uma década desde que o engenheiro biomédico se propôs a arranjar uma solução para controlar a diabetes tipo I. O pâncreas biónico, que deverá estar à venda em 2017, é um sistema dividido em três: um monitor, colocado por baixo da pele, uma caixa com duas bombas – uma de insulina e outra de glucose – e, finalmente, uma peça que se encaixa no iPhone. O monitor envia informação ao telemóvel sobre a glucose e, através de um algoritmo matemático, são tomadas decisões sobre o que é preciso administrar. Se, numa situação normal, o doente tem de verificar constantemente os níveis de açúcar, fazer cálculos e tomar decisões, com este sistema já não é preciso pensar em números. Nem tomar decisões: a insulina e a glucose são libertadas de forma automática.

São 288 decisões por dia. De cinco em cinco minutos, o monitor regista os níveis de açúcar e toma decisões. Se for necessário, o sistema injecta insulina (que baixa o nível de açúcar) ou glucose (que o aumenta)

DamianoFoi aos 11 meses que a mãe de David, pediatra, descobriu que o filho tinha diabetes. A partir daí, verificar os níveis de açúcar passou a fazer parte do dia-a-dia: níveis muito altos podem causar falência renal e levar à amputação de membros; níveis demasiado baixos geram tremores, convulsões e até a morte. Com o tempo, as rotinas tornaram­-se mais exigentes: era preciso contar as bolachas que David levava para a escola e acompanhá-lo nas visitas de estudo (os pais iam a todas).

A fuga de um doente

O pâncreas biônico começou por ser testado em porcos e já foi utilizado por crianças e adultos em estudos clínicos; até houve quem desaparecesse com ele, para não ter que devolvê-lo, como um jovem de 11 anos que fugiu dos pesquisadores e foi encontrado uma hora depois. Há ainda registos de pessoas que se sentiram nauseadas, ou que não apresentaram melhoras, mas as perspectivas são positivas. A revista Time, que conta a história, relata um estudo do New Journal of Medicine. Conclusão: 81% dos que usaram o pâncreas biónico controlaram melhor os níveis de açúcar.

Atualmente, David usa um monitor CGM, colocado na barriga, que faz o controle e apita se os níveis estiverem demasiado altos ou baixos. Para que o pâncreas biónico possa ser utilizado por David e chegar ao resto do mundo, tem de ter a cobertura dos seguros, ou custará milhares de euros. E nem todos os seguros de saúde co-participam os diferentes sistemas para tratar a diabetes. Mas, antes da questão financeira, ainda há outra prova: o último estudo clínico, que será realizado em 2016.

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