O paciente surpresa tipo 2

 

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Tratamento da diabetes tipo 2 é mais do que apenas tomar medicamentos orais

Na última terça feira (07/10/2014), ocorreu um evento patrocinado pela Novo Nordisk do lançamento da Tresiba, insulina de ultra-longa duração, tendo sido realizado no Centro de Diabetes da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo. Este Centro é referência em tratamento da diabetes, e atende a pacientes de todos os tipos em horários e dias específicos, de acordo com a característica e estágio da condição.

Constava na programação o tema “A voz do paciente diabético”, que tinha por objetivo, divulgar a excelência do tratamento do Centro de Diabetes à partir do depoimento espontâneo do próprio paciente.

Pacientes contando suas experiências com a diabetes tipo 2
Pacientes contando suas experiências com a diabetes tipo 2

Para isto, o Dr. Antônio Roberto Chacra, chefe daquela instituição, convidou dois deles que se encontravam na sala de espera do atendimento. Suas participações consistiria em responder à questionamentos do próprio Dr.Chacra e de qualquer outro presente no auditório que desejasse fazer alguma pergunta.

Os voluntários aparentavam tranquilidade e pareciam ser conscientes de suas condições. Eles tinham diabetes do tipo 2 e falaram de seus diagnósticos, um pouco de suas vidas com a doença até, finalmente, discorrerem sobre o tratamento realizado pelo Centro de Diabetes, o qual demonstraram estar plenamente satisfeitos.

Entretanto, pelo fato da escolha ter sido aleatória, sem combinação prévia, muitos participantes do evento ficaram surpresos em descobrir, durantes os depoimentos destes dois pacientes, que ambos apresentavam várias das mais clássicas complicações provenientes da diabetes tipo 2 mal administrada.

O primeiro deles sofria de retinopatia diabética e neuropatia, enquanto que o segundo relatou ter tido um AVC. Entretanto, diga-se de passagem, tais complicações foram anteriores ao início de seus tratamentos no Centro de Diabetes.

Não diria que tenha sido a escolha ideal para uma “conversa” pública durante o evento de lançamento de um moderno medicamento. Porém, acredito que eles representaram ali, não o paciente modelo, mas o grande universo de pacientes com diabetes do tipo 2, que possuem pleno conhecimento das graves consequências que a doença pode acarretar, mas que insistem em não se cuidar adequadamente.

Eu reforcei esta conclusão no dia seguinte a este acontecimento narrado acima enquanto estava em meu trabalho. Duas funcionárias do setor de tecnologia, foram convocadas para consertar um computador próximo ao meu que “só dava pau”, segundo avaliação técnica de uma outra colega que usava tal equipamento.

TiaBeth e seu marido durante palestra
TiaBeth e seu marido durante palestra em 2013

Ao iniciarem o serviço, uma delas me perguntou se o medicamento prescrito por seu médico era bom para o tratamento da diabetes tipo 2. Surpreendi-me com tal pergunta visto não ser médico, quando então ela me explicou que havia comparecido à uma palestra que eu e TiaBeth havíamos apresentado sobre diabetes e prevenção, lá no meu próprio trabalho, às vésperas do Dia Mundial da Diabetes, no ano passado.

A outra funcionária, que também tinha diabetes tipo 2, aproveitou a ocasião e fez-me a mesma pergunta, porém ela utilizava outro medicamento. Estranhamente, neste momento, fez-se um silêncio no ambiente, e todos, inclusive diversos outros colegas de trabalho que normalmente iriam zombar desta minha nova profissão de médico eventual, ficaram na expectativa e curiosos aguardando uma resposta esclarecedora de minha parte.

Para não decepcioná-los, apenas falei: “nenhuma droga para a diabetes tipo 2 é eficaz se você mantiver o mesmo estilo de vida que causou a doença. Perder peso, reduzir a ingestão de açúcar e carboidratos, além de fazer uma atividade física é fundamental para ajudar o medicamento a fazer efeito”.

Dito isto, meio que desapontada, uma delas falou: “é…, preciso parar de tomar refrigerantes. 🙁 “, e a outra ainda mais triste: “… e eu vou parar de trazer biscoitos para cá 🙁 “.

 

Ney Limonge – é psicanalista, criador, administrador, editor do TiaBeth.com, escreve o blog Psicoanalisando  quando lhe sobra tempo e também o Blog da TiaBeth. Ele não tem diabetes.


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