Promessa da natação volta com força após susto e ‘pior dia da vida’

Matheus Santana é um dos grandes nomes da nova geração (Foto: Danielle Rocha)

A convocação de última hora para uma reunião no Comitê Olímpico Brasileiro (COB) causou estranheza. Mas Matheus Santana seguiu o combinado. Deixou São Paulo, onde estava sendo disputado o Troféu José Finkel, para encontrar a mãe no Rio de Janeiro. Na sede da entidade, dois médicos e o coordenador técnico da CBDA o aguardavam para uma conversa. Os exames de controle exigidos pela Federação Internacional de Natação (Fina) para atletas que têm diabetes e fazem uso de insulina tinham apontado taxas elevadas.

Palavras que já foram suficientes para provocar o choro de dona Maria das Graças. O filho só foi entender a gravidade do quadro quando ouviu que não poderia disputar o Mundial Júnior de Dubai. Não se ateve tanto ao restante da explicação. O risco era grande para o grande esforço que faria na competição, podendo causar coma e internação.

O que ficou registrado, martelando na cabeça, foi aquele corte. Uma dor que aquele menino de 17 anos, com chances reais de pódio na competição, nunca pensou sentir.

–  Foi o pior dia da minha vida. Eu entrei em choque. Peguei o telefone e liguei para o meu técnico (Marcio Latuf) e falei: “Querem me cortar!”. Queria que ele falasse com dirigentes do clube para tentar mudar aquela situação. Fiz o que pude para isso e não parei de chorar. Voltei para São Paulo, encontrei meus amigos no hotel e contei o que tinha acontecido. Todo mundo ficou triste. Hoje vejo como foi grave mesmo. Eu estava sem controle. A taxa de hemoglobina glicada, que deve ficar entre 4 e 7%, estava entre 10 e 11%. Depois dali, fiquei três semanas parado. Fui ficar com a família para colocar a cabeça no lugar – disse Matheus, que está em Porto Alegre, disputando o Torneio Open, no Grêmio Náutico União.

O medo do treinador e da CBDA era que aquele talento promissor, que não se cansa de superar os recordes de categoria de Cesar Cielo, se perdesse depois do episódio. Uma equipe multidisciplinar foi montada para acompanhá-lo diariamente. O controle ficou mais rígido. Além do nutricionista, a Unisanta disponibilizou um endocrinologista e um psicólogo. Seu Israel, o pai, também se mudou para Santos para dar “puxões de orelha”. Marcação cerrada que Matheus diz preferir. Informações preciosas, que fazem o treinador trabalhar com mais tranquilidade.

– Ele precisava acreditar que tinha um problema de saúde e nisso o psicólogo ajudaria. Se não conseguisse equilibrar, não ia conseguir fazer mais nada. Ele só podia nadar 3.000m por dia, fazendo parte aeróbica, e reclamava porque acabava o treino antes da moçada. Eu pedia calma. O endocrinologista colocou uma insulina diferenciada, que tem um tempo maior de suporte e ele não precisa mais aplicar tantas vezes (eram quatro no total). Acho que as histórias de superação de outros atletas, como Nicholas dos Santos, Bruno Fratus e Poliana Okimoto ajudaram muito no processo. Todos deram a volta por cima na carreira e falei que com ele não seria diferente – afirmou Latuf.

O exemplo de Gary Hall Jr. também também contribuiu. Assim como Matheus, o velocista americano foi diagnosticado com diabetes tipo 1. Afastou-se das piscinas e um ano depois estava no alto do pódio nas Olimpíadas de Sydney 2000. Veio o novo ciclo e com ele o bicampeonato nos 50m livre em Atenas 2004.

Matheus sonha com um caminho tão vitorioso quanto de Cielo (Foto: Satiro Sodré / Divulgação)
Matheus sonha com um caminho tão vitorioso quanto de Cielo (Foto: Satiro Sodré / Divulgação)

Desde o susto, naquele mês de agosto, Matheus mudou o comportamento. A caixa de flocos de milho que comia compulsivamente, a alimentação desregrada e fora de hora ficaram para trás. Não que seja fácil ver os amigos comerem tudo o que querem e que ele não pode. Não é, ele admite. Mas percebeu que se não mudasse correria muitos riscos. E não queria mais ver a mãe chorar. Não de tristeza. Só de alegria.

Dali em diante, Matheus só colheu frutos. No início do mês, no Brasileiro Júnior, quebrou os recordes de campeonato dos 50m (22s55) e dos 100m livre (49s49). O dedo, apontado para o céu, era em agradecimento, por ter superado a fase ruim.

– Não quero nunca mais passar pelo que passei. Não quero que aconteça de novo. Esse foi um ano de aprendizado, para que eu reorganizasse as coisas, a vida. Aprendi a ter mais responsabilidade. E tanta gente me ajudou. Nicholas foi um deles. O psicólogo também está me ajudando porque sou um cara bem fechado para falar sobre problemas e estou aprendendo a lidar com isso. Agora eu quero pensar nos Jogos Olímpicos da Juventude (em Nanquim, no ano que vem) e também nas Olimpíadas do Rio. Quero brigar por vagas nas provas dos 50m e 100m livre. E agora estou nadando 200m também. Sonho em nadar cada vez mais rápido. Quero ser campeão mundial e olímpico e fazer história igual a esses caras.

Um desses “caras” é Cesar Cielo. Aquele com quem Matheus cresce sendo comparado a cada recorde que quebra. Aquele de quem herdou uma mania.

– Eu lido numa boa com a comparação. É bom ser comparado com o cara mais rápido de todos os tempos. Não encaro como uma pressão, não. Não levo isso para o dia a dia de treinos. Eu tenho uma mania que Cesar tem. Passei a colar papel, com tempo que quero fazer escrito, no teto do quarto (risos).

Integrantes da delegação brasileira no Mundial de Dubai fizeram homenagem a Matheus
Integrantes da delegação brasileira no Mundial de Dubai fizeram homenagem a Matheus

Dono de tantos títulos, homem a ser batido nos 50m livre, Cielo vê em Matheus um bom nome para manter a tradição brasileira nas provas de velocidade.

– Ele é o maior nome de todos que estão subindo da natação em geral e já tem tudo para fazer parte da equipe em 2016.  Acho que tem chance palpável de entrar no revezamento, de brigar com os caras. Está ali, se enfiando no bolo dos velocistas. E é só aprender a lidar com a rotina pesada que é exigida – elogiou o tricampeão mundial.

Preço que ele garante estar disposto a pagar.


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