Fatos sobre a dieta rica em proteínas

A alta prevalência de obesidade em todo o mundo desencadeou o interesse pela identificação do efeito da variação da proporção de macronutrientes na dieta sobre a perda de peso. Dietas ricas em proteínas, ou seja, aquelas com mais de 25% do valor calórico total (VCT) proveniente deste macronutriente, como carnes, leite e derivados, arroz/feijão, tornaram-se populares nos últimos anos, pelas promessas de diminuir o apetite e promover perda de peso preservando a massa magra.

De fato, pesquisas indicam que a proteína é o nutriente com maior efeito sobre a saciedade, a partir de mecanismos como a liberação de peptídeos gastrointestinais (ex: GLP-1) e outros ainda não conhecidos. A qualidade da proteína, determinada pela sua composição de aminoácidos, parece estar relacionada com a supressão da fome.

Com relação à perda de peso, a interpretação dos resultados de ensaios clínicos é limitada por fatores como duração da intervenção, tamanho da amostra e pelas taxas de abandono da dieta por parte dos pacientes, especialmente quando o aumento na proporção de proteínas é acompanhado por uma redução muito drástica nos carboidratos.

Em estudo conduzido por Tang et al. (2013) no qual homens com excesso de peso foram aleatorizados para receber dieta hipocalórica normoproteica ou hiperproteica durante 12 semanas, os dois grupos perderam quantidades semelhantes de peso corporal. A diferença foi que o que seguiu a dieta rica em proteínas perdeu quase 2 kg a menos de massa magra. A vantagem de preservar massa magra durante o emagrecimento é que este compartimento contribui para o gasto energético, favorecendo a manutenção do peso perdido.

Outro benefício da dieta rica em proteínas é a melhora do perfil lipídico. Clifton et al. (2009) observaram diminuição de colesterol total e triglicérides significativamente maior em pacientes que seguiram dieta hiperproteica em comparação aos que seguiram dieta normoproteica. Neste estudo, não houve diferença entre os grupos quanto à perda de peso. Diferentes trabalhos também descrevem o efeito positivo de dietas ricas em proteínas sobre a colesterolemia e outros fatores de risco cardiovascular.

Recentemente, um estudo demonstrou a superioridade de dieta rica em proteínas na melhora de marcadores de função da célula beta e de estresse oxidativo e na concentração de citocinas pró-inflamatórias e de adiponectina, em mulheres obesas sem diabetes. Em indivíduos com diabetes, segundo metanálise de nove ensaios clínicos, dietas com 25-32% das calorias em proteínas, comparadas a 15-20%, promoveram maior perda de peso, além de maior redução na hemoglobina glicada e na pressão arterial. Os autores ressaltam que é necessário confirmar estes achados em outras pesquisas, pois as evidências são provenientes de estudos curtos (até 6 meses de duração), portanto os possíveis efeitos negativos deste tipo de dieta não são conhecidos.

A preocupação mais recorrente é se a dieta rica em proteínas pode causar danos à função renal. Juraschek et al. (2013) verificaram que uma dieta com 25% do VCT em proteínas seguida por seis semanas aumentou significativamente a taxa de filtração glomerular de adultos saudáveis. O impacto em longo prazo não foi investigado. É necessário cuidado ao prescrever dietas ricas em proteínas para pacientes que apresentam maior risco de desenvolver doença renal crônica, por exemplo, aqueles com diabetes. A American Diabetes Association recomenda consumo de até 20% do VCT em proteínas.

Em conclusão, até que estudos de longa duração estejam disponíveis, é prudente recomendar dietas com teor moderado de proteínas, restritas em carboidratos refinados e gordura saturada, para promover benefícios (aumento da saciedade, preservação da massa magra e melhora do perfil lipídico), sem aumentar o risco de efeitos adversos. Além do mais, a adesão dos pacientes à dieta é melhor quando as mudanças na composição de macronutrientes não são extremas, respeitando suas preferências e hábitos alimentares.

 

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