Alimentos que curam

A busca por meios que possam reduzir a fome no planeta normalmente produz outros efeitos. Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa de Hortaliças (CNPH), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que tem como missão “executar atividades de pesquisa sobre os fatores que limitavam o desenvolvimento das hortaliças”, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), estão desenvolvendo hortaliças que, além de matar a fome, podem levar à cura de várias doenças, como a diabetes, por exemplo.

O projeto de pesquisa que vem sendo conduzido pela Embrapa Hortaliças (Brasília-DF), em parceria com o Departamento de Nutrição Humana da Universidade de Brasília (UnB), vem avaliando o efeito de uma espécie de abóbora sobre os níveis de glicemia em portadores de diabetes mellitus tipo II, distúrbio metabólico que afeta mais de 90% dos casos da doença.

Abóbora gila
Abóbora gila

Atualmente os pesquisadores estão trabalhando com a abóbora gila (Cucurbita ficifolia B.) no tratamento de pacientes portadores de diabetes tipo 2 e sementes de melancia para “o tratamento e prevenção de pacientes com hipertensão e pré-hipertensão, respectivamente. Já trabalhamos com alho para tratamento de colesterol e prevenção do infarto agudo do miocárdio, explica a pesquisadora Leonora Mansur Mattos, do CNPH.

Uma entusiasta das pesquisas,  Leonora garante que a população deve esperar novidades que podem ser alcançadas pelo trabalho da Embrapa Hortaliças feito por seus pesquisadores ou em parceria com outras instituições. “As hortaliças são ricas em compostos bioativos e cada vez mais temos pesquisado substâncias que podem ajudar na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que incluem as doenças cardiovasculares, neoplasias, diabetes, obesidade e doenças respiratórias”, informa.

A pesquisadora explica que as DCNTs são patologias, consideradas epidemias da atualidade, que acometem a população mundial e estão diretamente relacionadas com a urbanização acelerada, aumento progressivo da expectativa de vida, hábitos alimentares inadequados, aumento do tabagismo e sedentarismo. “Os compostos bioativos ajudam também na prevenção do envelhecimento e estamos pesquisando em nosso banco ativo de germoplasma, espécies com substâncias com capacidade antioxidante que possam ser adicionadas a cosméticos. Com dados das pesquisas “in vivo”, a população poderá consumir as hortaliças para prevenir as doenças com quantidades comprovadas cientificamente”, informa a doutora Leonora.

“A ingestão dos alimentos não irá combater a doença. Isso pode até acontecer, mas o que se espera dos compostos bioativos que possuem propriedades funcionais é que eles ajudem na prevenção das doenças como a diabetes, o colesterol, as doenças cardiovasculares, enxaquecas, distúrbios intestinais e outros males”, explica.

Pela pesquisa com a abóbora gila e com sementes de melancia, os horizontes delineados até agora apontam para resultados bastante promissores. Tudo começou a partir de ideia levantada pelo pesquisador Celso Moretti, da Embrapa Hortaliças que ministra aulas para estudantes de pós-graduação do curso de Nutrição Humana da Faculdade de Ciências da Saúde da UnB, juntamente com a pesquisadora Leonora Mattos. “Durante as aulas, geralmente são apresentadas questões configuradas como problemas para serem abordados em forma de projetos. Então, numa dessas ocasiões, o pesquisador sugeriu a formulação de projeto com base na possível relação do uso da cucurbitácea com o tratamento do diabetes tipo II”, conta a Leonora.

A ideia do pesquisador, de acordo com sua parceira de estudos, levou em conta alguns poucos estudos conduzidos no Brasil, que demonstraram o efeito hipoglicemiante – quando há queda nas taxas de glicose do sangue – a partir da ingestão de algumas cucurbitáceas. A sugestão de Moretti também despertou o interesse da nutricionista Lidiane Muniz, que aceitou o desafio e fez do tema a sua tese de doutoramento na UnB, virando também projeto de pesquisa conduzido pela Unidade da Embrapa, com apoio do Departamento de Nutrição Humana e do CNPq. O projeto aprovado tem como foco caracterizar física e quimicamente “in vitro” as substâncias presentes na abóbora, acompanhar o estado nutricional dos pacientes diabéticos tipo II e avaliar bioquimicamente, por meio de ensaios clínicos “in vivo”, os efeitos da estimulação de secreção de insulina pela Cucurbita ficifolia Bouché, conhecida como abóbora gila.

Em sua apresentação, o projeto aprovado justifica a sua concepção destacando os benefícios terapêuticos alcançados com o uso de hipoglicemiantes orais e insulina. De acordo com a coordenadora do trabalho, essa tem sido basicamente a única forma de controle do nível glicêmico no sangue, mas os benefícios obtidos agregam outras variantes, como os efeitos colaterais e o custo elevado. “A busca por plantas ou compostos naturais com atividade hipoglicêmica pode ser uma alternativa para suprir as necessidades de novos compostos ativos, menos tóxicos e possivelmente mais acessíveis à população”, opina Leonora.

Alimentos bioativos

A abóbora em questão possui compostos funcionais ou bioativos, que produzem efeitos metabólicos ou fisiológicos, isto é, além de agirem em funções nutricionais básicas, irão desencadear efeitos benéficos específicos à saúde. Estudos epidemiológicos, in vivo, in vitro e ensaios clínicos mostram que uma dieta alimentar balanceada e rica em antioxidantes pode reduzir o risco de doenças crônicas e degenerativas.

O que torna um alimento funcional é a presença de fitoquímicos, compostos identificados nas frutas e hortaliças e que desempenham um importante papel no organismo, ao ajudar a promover a saúde e a prevenir doenças, reforçando o sistema de defesa interno. Em linhas gerais, a literatura existente sobre o tema tem destacado que todo alimento natural pode ser classificado como bioativo, já que contem, em doses variáveis, elementos essenciais à saúde, como vitaminas, minerais, enzimas e fibras. No entanto, certos alimentos possuem – além desses componentes – outras substâncias com qualidades específicas, a exemplo do alho, cujas pesquisas realizadas em parceria pela Embrapa Hortaliças e UnB confirmaram os seus benefícios na redução do colesterol e na prevenção do infarto agudo do miocárdio.

Outra pesquisa em parceria com a UnB, ainda em fase inicial, vai estudar a citrulina, uma substância presente na melancia que atua no combate à hipertensão. O projeto tem como objetivo produzir um chá a partir das sementes dessa hortaliça.

PODER DO ALHO

alhoOutras pesquisas realizadas pela Embrapa Hortaliças em conjunto com a Faculdade de Ciências da Saúde da UnB comprovaram o poder do alho na redução do colesterol e na prevenção do infarto agudo do miocárdio. O estudo, desenvolvido pela doutoranda Ester Yosino e orientado pelos pesquisadores do Centro de Pesquisa Celso Moretti e Leonora Mattos, buscou informações sobre os efeitos da alicina, composto ativo presente no alho, e seus efeitos sobre a prevenção de doenças cardiovasculares.

A primeira fase do estudo buscou determinar o efeito do armazenamento sobre a concentração de alicina e de outras características químicas e físicas em diferentes cultivares de alho. Em seguida, foram avaliados os efeitos da substância na redução do colesterol e na prevenção do infarto do miocárdio em cobaias. A pesquisadora Leonora Mattos ressalta que os resultados das pesquisas confirmaram os efeitos positivos do consumo da alicina pelas cobaias.

Foram utilizadas duas variedades de alho brasileiro (Caçador e Peruano) e uma de alho chinês (Jinxiang). De acordo com Leonora Mansur, a pesquisa também avaliou outras características químicas e físicas da hortaliça e apontou uma vantagem para o produto nacional. “As variedades brasileiras avaliadas apresentaram mais propriedades funcionais que o alho chinês”, afirma.

A pesquisadora da Embrapa destaca que a pesquisa com cobaias confirmou os efeitos positivos do consumo de alicina. Ela explica que o estudo utilizou ratos, que foram divididos em dois grupos. O primeiro recebia uma dieta rica em gordura enquanto o segundo tinha um cardápio equilibrado. Os dois grupos recebiam doses iguais da substância e, nos dois casos, foi observada a redução nos níveis de triglicerídeos e de colesterol. A pesquisa também confirmou a ação do alho na prevenção do infarto. De acordo com o pesquisador Celso Moretti, para animais com colesterol normal, o alho não evitou o infarto agudo do miocárdio, mas para aqueles com colesterol alto, houve uma diminuição do risco do infarto.

REDUZINDO O COLESTEROL

As propriedades medicinais do alho são milenares e têm sido comprovadas pela ciência. Em 2001, pesquisadores britânicos do Garlic Centre, publicaram um estudo no qual afirma que pessoas que tomam uma pílula de alho por dia estão menos propensas a resfriados comuns. Agora, uma pesquisa da Embrapa Hortaliças e da Faculdade de Saúde da UnB comprova que o alho pode curar problemas bem mais graves que uma simples gripe.

O estudo, realizado pela doutoranda Ester Yosino da Silva e orientado pelos pesquisadores da Unidade Celso Luiz Moretti e Leonora Mansur Mattos, buscou informações sobre o efeito do composto ativo mais comum do alho, a alicina, na redução do colesterol e na prevenção do infarto agudo do miocárdio. Segundo Ester Yosino, o objetivo do estudo foi determinar o efeito do armazenamento sobre a concentração de alicina e de outras características químicas e físicas em diferentes cultivares de alho. A segunda etapa foi avaliar os efeitos da substância na redução de colesterol e na prevenção do infarto agudo do miocárdio em cobaias.

Os efeitos benéficos foram confirmados, mas, se você tem colesterol alto, não precisa comprar caixas e mais caixas de pílulas de alho. Ester Yosino explica que a dosagem de alicina recomendada para pessoas ainda não pode ser determinada. Para isso, são necessários estudos específicos com seres humanos. Outra questão é a volatilidade da substância. Segundo a pesquisadora, a alicina forma-se apenas quando o dente de alho é cortado ou macerado e entra em contato com água. E tão rapidamente quanto surge, ela degrada. O calor e o tempo são fatores que fazem a substância desaparecer. Por isso, a melhor forma de obter alicina é saborear o alho in natura, cortado ou esmagado, ou em pó.

Mas Ester Yosino alerta que o consumo excessivo da hortaliça também pode causar riscos à saúde, como anemia. De acordo com ela, o consumo máximo diário recomendado pela literatura científica não deve ultrapassar dez gramas, cerca de três dentes grandes, no caso do produto in natura, ou até seis gramas de alho em pó.

BARU

baruMais que uma iguaria saborosa e nutritiva, o baru – fruto castanho do Cerrado pouco conhecido no País – tem alto potencial antioxidante e, como resultado, poder para combater processos inflamatórios e doenças crônicas e degenerativas, como câncer, hipertensão, diabetes, artrite e enfermidades cardiovasculares. A descoberta, da cientista de alimentos, Miriam Rejane Bonilla Lemos, é relatada em estudo desenvolvido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UnB, em parceria com a Universidade Federal de Pelotas.

A partir da análise de compostos bioativos em amêndoas de baru, a pesquisadora comprovou a eficiência desses fitoquímicos no controle dos radicais livres – principais responsáveis por inúmeras enfermidades. “Nossos estudos em laboratório acusaram esses grupos com reconhecida ação contra as moléculas causadoras do estresse oxidativo”, explica. “Os fitoquímicos contribuem como potentes agentes preventivos de doenças graves”, complementa Miriam.

A pesquisadora descobriu também que os óleos da amêndoa do baru são mais ricos em ômega 3, 6 e 9, com 81% de ácidos graxos insaturados que os próprios peixes, tão recomendados em dietas saudáveis. “Em relação a seu potencial oxidativo, na família de leguminosas – pistache, amendoim, noz, macadâmia –, sem dúvida alguma, a amêndoa do baru se sobressai”, diz.

De acordo com a orientadora do estudo, Egle Machado Siqueira, professora da Faculdade de Ciências da Saúde, “a pesquisa é um pontapé inicial no reconhecimento das propriedades farmacológicas do baru, geralmente mais estudado em seus aspectos nutricionais”. Para ela, a identificação de altos níveis de fenólicos, antioxidantes mais poderosos que as vitaminas C e E, constitui, sem dúvida, uma grande contribuição científica. O estudo foi co-orientado pelo professor Rui Carlos Zambiazi.

CERRADO

cerradoOutro ponto positivo da pesquisa apontado pela professora Egle é a valorização do Cerrado, segundo maior bioma do Brasil, “flora ainda pouco notada em seu potencial produtivo”, de acordo com o estudo.

Para Miriam Bonilla, o governo deve conferir mais atenção política a esse rico e diversificado patrimônio genético. “Apesar de toda essa riqueza, ao longo dos últimos anos, o cerrado vem passando por inúmeras e criminosas devastações, e a degradação ambiental ameaça um acervo inestimável do ponto de vista biológico”, diz, aproveitando para defender a utilização racional da matéria prima e um “extrativismo consciente e controlado, ação a ser conduzida pelo poder público”.

 

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