Diabetes pode variar de acordo com etnia

Família Polinésia.

A etnia desempenha um papel surpreendentemente importante na forma como o diabetes se desenvolve a nível celular, de acordo com dois novos estudos conduzidos por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Stanford. Os pesquisadores reanalisaram diversos dados desta doença para demonstrar que a fisiologia do diabetes difere entre a África e a Ásia Oriental e que essas diferenças são causadas, em parte, pela genética. Os estudos foram publicados simultaneamente no dia 23 de maio nas revistas online PLoS Genetics e Diabetes Care .

“Temos novas idéias acerca das diferenças entre a diabetes em todo o mundo, apenas por essa nova perspectiva aplicada a estudos mais antigos”, disse Atul Butte, MD, PhD, autor sênior do estudo e chefe da Divisão de Sistemas de Medicina e Professor Associado de Pediatria e de Genética. “Há muito mais ainda para se aprender sobre diabetes do que sabemos”.

Os estágios iniciais da diabetes tipo 2, ou diabetes do adulto, podem se desenvolver quando o pâncreas apresenta problemas em se produzir insulina, um hormônio fundamental para a regulação do açúcar no sangue. Ou quando as células do corpo têm dificuldade em responder à insulina, uma condição chamada de “resistência à insulina”. Ambos os problemas levarão ao mesmo resultado: muito açúcar na corrente sanguínea da pessoa, que é o principal critério para o diagnóstico da diabetes. Diabéticos reduzem a produção de insulina ou apresentam maior resistência à ela, na medida que a doença progride.

No estudo publicado na revista PLoS Genetics, os pesquisadores começaram estudando as informações sobre o genoma em mais de 1.000 pessoas de 51 povos no mundo todo. Estes indivíduos eram de populações indígenas, representando os primeiros grupos de humanos nos diversos locais. O autor e ex-aluno de pós-graduação no laboratório, Butte e Erik Corona, PhD, estudaram mais de 100 doenças em busca de diferenças genéticas em risco através destas populações nativas, e encontraram um claro padrão geográfico na genética por trás da diabetes tipo 2.

O risco genético observado era maior para os africanos e diminuía ao longo da trajetória dos primeiros seres humanos que migraram da África para a Ásia (principalmente Japão, China e Coreia), onde os genes ligados à diabetes pareceram ficar mais protetores. Com base apenas no que se sabe sobre a genética da diabetes tipo 2, africanos nativos parecem estar em maior risco, enquanto os asiáticos do leste parecem estar mais protegidos. Porém leste-asiáticos não se encontram necessariamente em menor risco de diabetes do que os africanos. Butte destacou que “leste-asiáticos definitivamente tem diabetes. O que podemos dizer é que o diabetes pode ser uma doença diferente em cada uma dessas populações”.

Uma ferramenta interativa que exibe os resultados do estudo pode ser encontrada no site http://geneworld.stanford.edu/hgdp.html.

As conclusões do estudo da genética levaram a equipe de Butte a se perguntar se não havia evidência clínica destas diferenças em populações asiáticas e médio-africanas.

Para o segundo relatório, o autor e a equipe de engenharia de pesquisa associada de Keiichi Kodama, MD, PhD, levantaram dados de mais de 70 trabalhos que estudaram a secreção de insulina medida simultaneamente com a resistência à insulina em indivíduos através de três diferentes grupos étnicos: africanos, caucasianos e asiáticos do leste.

Eles descobriram que, no início, os africanos apresentaram maior resistência à insulina, mas foram capazes de compensar com um nível de secreção de insulina mais elevado. Leste-asiáticos eram mais propensos a ter menos capacidade de secreção de insulina, mas isso foi compensado pela menor resistência à este hormônio. Caucasianos ficaram entre esses dois grupos, apesar de serem mais propensos a desenvolver problemas com a secreção de insulina.

Os pesquisadores mostraram que, pelo fato dos indivíduos de cada grupo étnico terem começado em uma posição inicial diferente, a diabetes de cada um deles os alcançaram de uma maneira diferente: os africanos através do aumento da resistência à insulina e asiáticos do leste através de uma menor capacidade de secreção de insulina. “Os africanos já são bastante resistentes à insulina”, disse Butte. “Eles precisam que suas células beta trabalhem duro. Se suas células não o fizerem, ficam no caminho para a diabetes”. Leste-asiáticos, por outro lado, “não possuem muita capacidade para aumentar a produção de insulina se necessário”. Os resultados foram publicados no Diabetes Care.

Butte observa que uma mudança na forma como os médicos pensam sobre a diabetes pode levar à terapias mais específicas, assim como se evoluiu a forma de pensar sobre o câncer ao longo dos últimos 10 anos, o que levou a novos tratamentos para esta doença. “Outros campos da medicina passaram por uma reformulação radical na taxonomia de doenças, mas isso ainda não aconteceu para a diabetes, uma das maiores ameaças à saúde pública do mundo”, disse ele. “Se esta doença é distinta em um nível molecular, precisamos tentar entender isso”.

Outros co-autores de Stanford incluem o cientista em bioinformática Chen Rong, PhD; Carlos Bustamante, PhD, professor de genética e co-diretor do novo Centro Computacional de Stanford, Evolutiva e Human Genomics, ex-alunos de pós-graduação Alexander Morgan, PhD, e Aditya Ramesh , MS, e os acadêmicos de pós-doutorado Chirag Patel, PhD, e Martin Sikora, PhD. Cientistas da Universidade de Lund, em Malmo, na Suécia, e da Universidade de Kitasato, em Tóquio também foram envolvidos neste trabalho.

 

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