Diabetes bem controlada diminui risco de disfunção erétil

Existe um sentimento difundido na sociedade que a maioria dos homens diabéticos tem problemas de disfunção erétil e que, na mulher, a doença altera o desejo sexual. Um sentimento que não é todo verdadeiro. A doença, que acomete cerca de 10% da população mundial e 5,6 % no Brasil, apresenta poucos sintomas no adulto em relação à vida sexual – quando bem acompanhada e controlada. De acordo com o endocrinologista Ney Cavalcanti, os diabéticos precisam se convencer de “que precisam ser tratados adequadamente”. Ou seja: apesar da ausência dos sintomas, as prescrições médicas precisam ser rigorosamente seguidas, evitando, assim, o surgimento da sintomatologia.

A doença vem apresentando números cada vez mais expressivos no Brasil. Dados de pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde nessa terça (13) mostram que, de 2000 a 2010, o diabetes foi responsável por mais de 470 mil mortes em todo o País e que, durante esse período, o número anual de óbitos cresceu, de 35,2 mil para 54,8 mil. No Recife, 6% da população adulta possuem diabetes segundo a Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

Em 2011, Recife apresentava 6% da população adulta diabética (Imagem: Vigitel)

Para o endocrinologista Ney Cavalcanti, o crescimento da doença é também decorrente da maior longevidade da população. “As pessoas estão comendo e vivendo mais, e só isso já aumenta os casos”. Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, os motivos são obesidade e sedentarismo.

“A diabetes é uma doença comum hoje em dia”, diz Ney Cavalcanti, explicando que a disfunção erétil se dá através de três componentes: o psicológico, o neural e o vascular. Em relação à disfunção orgânica, o problema tem duas origens: a neuropatia aparece porque não acontece o enchimento dos corpos cavernosos, já que o nervo que deveria levar a mensagem está prejudicado pela diabetes. No segundo caso, o vaso é obstruído devido a um processo arteriosclerótico. “Vale frisar que isso só acontece em diabetes de longa duração e mal controlada”, detalha Cavalcanti.

 Encocrinologista do Hospital Agamenon Magalhães e do Instituto Brasileiro de Diabetes (Ibradi), Ana Carolina Thé Garrido, também diagnostica que a falta de controle da doença é a principal responsável pela disfunção erétil. “No homem, a função erétil pode ficar comprometida, pois o processo de ereção é controlado pela inervação e vascularização do pênis e região perineal. Quando um ou ambos os mecanismos são danificados pela hiperglicemia crônica, dá-se o quadro de impotência sexual”, afirma.

Segundo ela, outra consequência da diabetes mal controlada nos homens é a ejaculação retrógrada – quando o sêmen é ejaculado pra bexiga e não para uretra, pois uma válvula da bexiga não se fecha durante a ejaculação – , também causada por disfunção nos nervos periféricos. Para Ana Carolina, a questão psicológica tem muita relevância. “O diabetes, em ambos os sexos, está associado a uma maior prevalência de depressão, que influencia diretamente na função sexual”.

Há um ano, o comerciante Claudemir Sousa, de 33 anos, descobriu que tinha a doença. Frequenta o Ibradi desde o diagnóstico e confirma que a diabetes afetou sua vida sexual, mas, como prescreveu Ana Carolina, a causa foi mais “psicológica” do que “orgânica. “Infelizmente tive problemas de natureza sexual, mas procurei um médico da área e tenho me tratado com remédios. Tenho outros amigos que têm diabetes, mas dizem nunca ter tido disfunção. Acredito que, no meu caso, a causa foi psicológica, muito mais pelo medo. Hoje, com o tratamento, tenho levado uma vida sexual normal”, afirma.

Hoje vários produtos priorizam a saúde do diabético (Foto: Chico Porto/JC Imagem)

O tratamento existe e é eficaz, garante Cavalcanti. “O diabético deve conversar com seu médico para encontrar a forma mais adequada de tratar a sintomatologia. Geralmente ou se usa uma prótese peniana ou se recomenda o uso de medicamentos que estimulem o enchimento dos corpos cavernosos”.

Consultor em comunicação empresarial, Kennedy Michiles é diabético há 17 anos. No início da descoberta, chegou a sentir perda de peso, sede, fome em excesso e peso nas pernas. “Uma vez introduzido o tratamento com insulina, aos poucos tudo foi se equilibrando e até hoje é assim”, conta. O consultor segue – na medida do possível – as recomendações médicas e, por isso, nunca apresentou disfunção erétil. “Até aqui, nenhum sintoma mais grave se apresentou e a bomba de infusão de insulina me deu um ganho muito grande na qualidade de vida”, revela.


Diabético há 15 anos, Gustavo Barros, de 50 anos, usa três medicamentos para controlar a doença. “Nunca fui socorrido nem internado, estou ótimo, graças a Deus. Como sou hipertenso, tomava um medicamento que acabou diminuindo minha libido, mas troquei de remédio e tudo voltou ao normal na minha vida sexual”, explica.

Vida não sedentária ajuda a prevenir a doença (Foto: Bernardo Soares/JC Imagem)

Nas mulheres, que são as principais vítimas – só em 2010, foram 30,8 mil mortes de mulheres em decorrência da doença no País, contra 24 mil de homens -, a diabetes aumenta a possibilidade de surgirem infecções genitais, segundo Cavalcanti. “O açúcar é um meio de cultura bom para a proliferação de bactérias e fungos, isso se for uma diabetes descontrolada. Caso controlada, vai se comportar com uma mulher não diabética”, destaca.

Ana Carolina esclarece que, apesar da complexidade da excitação na mulher, o sistema circulatório e nervoso (que podem ser atingidos pela diabetes) deve estar com bom funcionamento para que se tenha uma vida sexual normal. “O bom funcionamento dos sistemas nervoso e circulatório é necessário para que haja adequada irrigação sanguínea do períneo, bem como transmissão dos estímulos que levam às sensações físicas de excitação e orgasmo”.

O importante é seguir as prescrições médicas. Apesar de não estar sentindo nada, as restrições dietéticas e de medicamentos devem continuar sempre para o diabético. “Como não apresentam sintomatologia, os diabéticos se descontrolam e saem da dieta. Esse descontrole a longo prazo pode trazer repercussões negativas, principalmente na esfera cardiovascular”, alerta Cavalcanti. Tanto que a a  causa de morte mais frequente no diabético são problemas de infarto de miocárdio e Acidente Vascular Cerebral (AVC). A prática de exercícios físicos e o consumo de produtos sem açúcar minimizam os problemas e até o aparecimento da doença.

 

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