Blog Diabetes – Parte 2 – A primeira hipo a gente nunca esquece

No primeiro encontro com aquela que para mim se tornaria a TiaBeth, eu a levei para um jantar romântico no bairro da Lagoa. Tudo correu muito bem, inclusive resolvemos encontrarmos novamente na semana seguinte para um programa familiar, à tarde no Barra Shopping no Rio de Janeiro.

O BarraShopping

Barra Shopping

Na semana seguinte chegamos a um shopping lotado devido ser véspera de dia dos pais. TiaBeth foi acompanhada de seu filho e eu com minha afilhada. Eu fui comprar um presente para esta menina e, por isso, tivemos que andar muito pelo gigantesco shopping, por acaso sem fazer refeição alguma. Entramos numa loja e ao sair dela percebo que a TiaBeth estava meio tonta, sem conseguir ficar de pé e falando coisas sem sentido.

E logo me vi segurando-a pelo ombro, procurando desesperadamente um lugar para acomodá-la. Mas o que era aquilo? Fiquei assustado e minha afilhada muito mais. Chamei o segurança que nos encaminhou até o posto médico do shopping. Lá chegando, não tinha médico algum, pois no ano de 2000, não havia a obrigatoriedade da presença deste profissional.

Destino: Hospital Lourenço Jorge

Com medo que algo acontecesse dentro do estabelecimento, rapidamente a administração do shopping providenciou um carro para leva-la até o hospital mais próximo logo ao lado, que era público, o Lourenço Jorge. Chegamos bem rápido e, além de TiaBeth, estava acompanhado de duas crianças, sendo que minha afilhada quase em estado de choque.  Nos dirigimos ao setor de emergência e após breve atendimento, dois médicos se dirigiram a mim perguntando se ela estava drogada e que pretendiam aplicar um injeção de diazepam. Não sei se chegaram a esta conclusão devido aos furos em seu braço, que eram da insulina, ou porque ela falava frases sem sentido.

Apesar de não ser médico e nem conhecer direito TiaBeth, falei que não deveria ser o caso de drogas. Para minha surpresa eles então saíram sem nada fazer ou prescrever. E até aquele momento, eu ainda não sabia que ela era diabética, pois apenas balbuciava palavras sem sentido. Os auxiliares a colocaram então sob uma maca de metal, enquanto eu aguardava um milagre qualquer.

Hospital Lourenço Jorge

Neste tempo chegavam acidentados, doentes de todos os tipos e curiosos que olhavam para a TiaBeth, agora já quase num coma hipoglicêmico, e me perguntavam o que ela tinha. Eu dizia, não sei. Lembro-me de uma senhora  acompanhando um doente, que deu-me um conselho bem claro e direto após saber que aquela mulher era apenas futura namorada: – “Meu filho, sai fora enquanto é tempo”. Eu achei graça e não levei a sério.

Passadas algumas horas, lembrei-me de telefonar para a sua casa a fim de avisar à sua família de que ela iria “se atrasar” um pouco. Estava suando de nervoso e contei o caso, quando então a irmã, que atendeu à ligação, me disse que ela era diabética e falou do outro lado da linha com muita tranquilidade: – “Isso não é nada. Dá um pouco de coca-cola normal que passa”. Sinceramente não imaginava que seria tão fácil.

A recuperação

Após comunicar à equipe médica de que TiaBeth era diabética, eles logo lhe aplicaram um injeção de glicose e, em pouco tempo,  ela se recuperou e saiu da maca andando normalmente. Peguei meu carro que havia buscado no shopping e fomos embora daquele hospital, que por um momento representou para mim, a beira do inferno.

TiaBeth no Barrashopping 13 anos depois – Foto de 2012

Depois de alguns anos, já casado e com muitas outras histórias, passando em frente ao Lourenço Jorge, lembrei-a deste episódio narrado acima. Ela simplesmente me disse que nunca estivera naquele local. Eu a olhei para ver se estava falando sério e, para minha surpresa … estava. Para TiaBeth aquilo deve ter sido apenas mais um dos sonhos que a hipoglicemia proporciona e que a gente esquece com o abrir dos olhos quando retorna aos níveis normais de glicose. Mas para mim, aquilo foi um pesadelo do qual certamente jamais irei esquecer.

marido-tiabeth

Ney Limonge é psicanalista, engenheiro elétrico e casado com Raquel Limonge, diabética do tipo 1 e protagonista das suas histórias. Escreve o blog Psicoanalisando quando lhe sobra tempo e também o  Blog da TiaBeth. Ele não tem diabetes.


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