Combatendo a diabetes: algumas coisas que o dinheiro não pode comprar

Os altos preços do petróleo têm financiado um estilo de vida opulento nos países do Golfo Pérsico, mas essa riqueza está tendo consequências mortais.

Os altos preços do petróleo têm financiado um estilo de vida opulento nos países do Golfo Pérsico, mas essa riqueza está tendo consequências mortais.

Os alimentos com alto teor calórico, a diminuição da atividade física e as altas taxas de tabagismo exacerbaram uma predisposição genética para diabetes, alimentando uma epidemia responsável por 10 por cento do número total de mortes de adultos e absorvendo uma grande fatia do orçamento direcionado à saúde da região. Cinco dos seis países do Golfo estão listados entre os 10 lugares com pior índice de incidência de diabetes, de acordo com dados da Federação Internacional de Diabetes. Os Emirados Árabes Unidos estão em 2º lugar, atrás apenas da pequena ilha de Nauru, no Pacífico.

Alimentação saudável, prática de exercícios e manejo do estresse podem reduzir drasticamente a obesidade e a probabilidade de desenvolver diabetes, mas está sendo bastante difícil convencer os pacientes e aqueles que correm risco de desenvolver a doença a mudar de vida na região.

“Só é possível encontrar uma solução por meio da conscientização e da mudança de comportamento desde a juventude”, diz Dr. Mazin Jawad al-Khabouri, consultor sênior do Hospital de Otorrinolaringologia Al Nadha, de Omã, e conselheiro do Ministério da Saúde de Omã. “Não é fácil”, diz ele. “Como todo mundo aqui é obeso, isso não é considerado um problema grave, mas não há dúvida de que as doenças não transmissíveis, como diabetes, são o maior problema que o Golfo enfrenta. Cerca de 20 a 24 por cento da população nacional do Golfo têm diabetes e, como ela está relacionada a muitas outras doenças crônicas do coração, rins e oftalmológicas, se pudermos controlar a diabetes, temos como controlar também essas outras doenças.”

Desde o final do século XX, os governos da região têm acompanhado e desenvolvido estratégias para reduzir esse problema, oferecendo oportunidades de realizar exames de modo acessível e treinamento para mais profissionais de saúde. Os resultados têm sido limitados, no entanto, e o número de casos de diabetes continua a subir.

Recentemente, um grupo de especialistas em diabetes de Omã descobriu que os pacientes ainda pensam de modo equivocado a respeito de muitos aspectos relacionados à doença, recorrendo a os medicamentos fitoterápicos, comendo demais em restaurantes e abusando na quantidade de mangas, e até mesmo comendo mel, julgando que, por ele ser ‘natural’, não afetaria o açúcar no sangue.

‘Omã, como outros países do Golfo, está em um período de transição’, diz a Dra. Fatma Ajmi, diretora-geral de serviços de saúde na governadoria de Muscat. ‘As pessoas acreditam no sistema de assistência à saúde, mas temos que convencê-las de que não são os remédios, mas sim os próprios pacientes, que podem fazer a diferença.’

Para isso, os países do Golfo estão investindo recursos em serviços de cuidados primários, reforçando o relacionamento entre os técnicos de saúde e os pacientes. E é aí que entram as técnicas de marketing.

‘Nós ainda estamos aprendendo a nos comunicar com as pessoas’, diz Ajmi, ‘e como capacitá-las a manejar a própria doença’.

A solução está em encontrar técnicas inovadoras para envolver grupos específicos da população, diz Markus Christen, professor associado de Marketing da escola internacional de Administração Insead.

‘De um ponto de vista puramente médico’, ele continua, ‘temos uma boa noção do que está acontecendo de errado. As pessoas levam uma vida confortável e não querem abrir mão dela. Preferem tomar uma pílula mágica vinda de uma farmácia para continuar a se comportar assim. É mais fácil do que frequentar uma academia’.

‘Precisamos mudar esses hábitos, criar novos’, diz Ajmi. ‘O marketing é uma maneira poderosa de fazer isso. As marcas mais bem sucedidas estão prosperando porque nos levaram a ter certos hábitos. Agora queremos que elas usem os mesmos métodos para nos ajudar a mudar hábitos. Não é uma questão de ser forte e dizer o que as pessoas precisam fazer, porque elas vão resistir a essa abordagem.’

Embora as campanhas anteriores tenham sido voltadas para o público em geral, as abordagens direcionadas dão melhores resultados, diz Christen. Grupos diferentes necessitam de abordagens diferentes. Devido à sua natureza viciante, por exemplo, o tabagismo tem um componente médico, bem como social, enquanto muitos hábitos alimentares estão ligados à cultura da região.

‘Dentro da estrutura da família ou da comunidade’, diz Christen, ‘muitas vezes existem influências tradicionais que são prejudiciais para o que estamos tentando realizar. Frequentemente, são influências muito arraigadas e extremamente difíceis de mudar’.

‘E é aí que precisamos injetar novas ideias e inovação’, argumenta ele. ‘Talvez seja uma questão de incentivar os empregadores a possibilitar que os funcionários tenham tempo livre para cuidar de si mesmos, talvez até frequentar uma academia.’

Em âmbito nacional, pode custar caro bancar a mensalidade de academias para a população, mas a alternativa é ainda mais dispendiosa. Conforme aumenta o número de vítimas de diabetes, a tecnologia avança e os tratamentos de doenças crônicas se tornam mais caros, assim como os gastos com saúde na região, que têm subido rapidamente. Estima-se que, desde o valor registrado atualmente, de 12 bilhões, esse gasto chegue a 60 bilhões, valor previsto para 2025, de acordo com a McKinsey & Company.

Stephen Chick, professor de tecnologia e gestão de operações no Insead e diretor do Programa de Liderança na Área da Saúde do Oriente Médio, vinculado à escola, diz que o desafio dos gastos crescentes com saúde está forçando sistemas de saúde de todo o mundo a sair de um modelo que enfatiza os cuidados intensivos e procurar combinar cuidados intensivos e primários. Em outras palavras, eles estão se afastando de um paradigma que combate as doenças e buscando uma maneira de promover o bem-estar.

‘A gestão da inovação e um pensamento sistêmico às vezes não são enfatizados pelas escolas de Medicina e Enfermagem’, diz Chick, ‘mas eu acho que a carência em termos de processos, envolvimento e marketing pode ser fatal se as coisas não forem bem feitas. À medida que as pessoas envelhecem, categorias diferentes de doenças vão se tornando mais prevalentes. É absolutamente essencial enfrentar o desafio das doenças crônicas para garantir que tenhamos um sistema de saúde sustentável. A questão é: podemos pensar de forma diferente e elaborar rapidamente um sistema que se adeque à situação que vivenciamos hoje?’

Para Al-Khabouri, a resposta deve ser sim.

‘Os custos para os governos são muito, muito altos’, diz ele, ‘e, por causa do fator exponencial, vai chegar um momento em que ninguém conseguirá bancá-los. Precisamos de formas novas e inovadoras de pensar. Nós não conseguiremos sustentar a situação como ela está hoje’.

 

Jane Williams é colaboradora do INSEAD Knowledge.

 

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