Cirurgia bariátrica diminui em até quatro vezes o risco de diabetes tipo 2, segundo nova pesquisa

bariatrica
Estudo que acompanhou mais de 3.000 pacientes por 15 anos fornece novas evidências sobre os efeitos positivos do procedimento na prevenção da doença

Um extenso estudo feito na Suécia concluiu que a cirurgia bariátrica pode atrasar ou até impedir que pessoas obesas desenvolvam diabetes tipo 2. Segundo os resultados dessa pesquisa, que foi realizada com mais de 3.000 indivíduos, o procedimento é capaz de reduzir o risco da doença em até quatro vezes ao longo de 15 anos.

A descoberta, publicada nesta quinta-feira no periódico The New England Journal of Medicine (NEJM), vai ao encontro das conclusões de um trabalho realizado no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, que já havia indicado a relação positiva entre a cirurgia bariátrica e o diabetes tipo 2. No caso da pesquisa brasileira, coordenada pelo cirurgião Ricardo Cohen, o procedimento foi feito com pacientes obesos que já apresentavam a doença, e os resultados revelaram que a operação foi capaz de controlar o diabetes em 99% dos pacientes no prazo de um ano após a cirurgia.

Dessa vez, o novo estudo da Universidade de Gotemburgo mostrou que a cirurgia bariátrica pode também ter um caráter preventivo em relação ao diabetes. Dos indivíduos selecionados para a pesquisa, todos com obesidade e nenhum com diabetes tipo 2, 1.658 passaram pelo procedimento, enquanto 1.771 permaneceram no grupo de controle — ou seja, não foram submetidos a nenhuma cirurgia do tipo.

A incidência de diabetes entre o primeiro grupo ao longo dos 15 anos após a operação foi de um caso para cada 150 pessoas ao ano, enquanto esse número em relação ao restante dos participantes foi de um caso para cada 35 pessoas ao ano. Segundo os resultados, os efeitos positivos da cirurgia foram semelhantes mesmo entre os pacientes que já apresentavam alto risco de desenvolver diabetes.

Veja também: Infográfico explica os procedimentos de redução do estômago mais usados

Melhor medida — A pesquisa sueca também concluiu que medir os níveis de açúcar no sangue de um indivíduo antes de ele realizar a cirurgia foi a melhor maneira de prever se ele apresentava risco de desenvolver diabetes. Olhar para o índice de massa corporal (calcule aqui seu IMC), por outro lado, não foi eficaz nesse sentido. De acordo com Lars Sjostrom, um dos autores do estudo, esse dado pode indicar que o grau de obesidade de um paciente deveria receber menor atenção quando ele deseja realizar uma cirurgia bariátrica.

As recomendações originais para a cirurgia bariátrica diziam que ela deveria ser realizada apenas em pacientes com IMC maior do que 40. No entanto, com a comprovação de que o procedimento, além da redução de peso, contribuía para a melhora de outros problemas, como doenças coronárias e apneia do sono, esse limite foi reduzido para 35 em alguns casos. O estudo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, no entanto, indicou que a cirurgia também pode trazer benefícios para pacientes com IMC entre 30 e 35.

Cautela — Para Sjostrom, apesar da dimensão desse estudo, outros são necessários para determinar os prós e os contras, tanto para a saúde do paciente quanto para os custos da saúde pública, de realizar uma cirurgia bariátrica com o objetivo de reduzir o risco de diabetes.

Em um editorial do NEJM que acompanhou o estudo, o professor do Departamento de Cirurgia da Facudade de Medicina da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, Danny Jacobs, considerou os resultados dessa pesquisa “provocativos e animadores”, mas acredita que “continua impraticável e injustificável” a realização de cirurgia bariátrica em todos os milhões de adultos que são obesos. “Para ser preciso”, afirmou o editorial, “nesse trabalho os autores não sugerem esse tipo de abordagem, mas sim estimulam uma compreensão mais completa dos mecanismos pelos quais os procedimentos bariátricos exercem seus efeitos benéficos. Tal entendimento será importante porque vai permitir a identificação das pessoas que são as candidatas mais adequadas para a cirurgia.”

Opinião do especialista

Ricardo Cohen
Cirurgião do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM)


“Esses resultados mudam a nossa visão sobre cirurgia bariátrica. Mostra que a cirurgia não só retarda o aparecimento de diabetes em pessoas com excesso de peso, mais também reduz a incidência da doença. Ou seja, some com as chances da condição em determinados indivíduos.

Em termos práticos, esse estudo lança luz sobre dois caminhos. Um deles é a introdução de tratamentos clínicos, ou seja, com medicamentos, mais agressivos nesses pacientes, com maior antecedência. Ou seja, os remédios para perda de peso entre obesos não devem ser aplicados somente entre aqueles que já sofrem de diabetes, mas sim entre os que apresentam risco do problema.

O outro caminho é o da cirurgia bariátrica como forma de evitar doenças graves e que podem causar mortes em pacientes com maior risco.

O peso individualmente não determina o risco de diabetes, como o estudo mostrou. Esse dado é mais um fundamento para a nossa luta. Ou seja, o peso sozinho não é marcador de mortalidade ou doença.”

 

http://veja.abril.com.br/


Similar Posts

Topo