Jejum intermitente pode ajudar a combater o diabetes. Aqui está a ciência.

Mais testes precisam ser realizados em seres humanos para que os cientistas tenham certeza de que o jejum intermitente funciona

O jejum intermitente está atualmente em todo lugar. Mas não se deixe enganar: é muito mais do que apenas a última moda. Estudos recentes desse tipo de jejum – com parte do tempo restrito, mas não o tempo todo – produziram uma série de sucessos, mas o mais recente envolvendo o diabetes pode ter sido mais impressionante ainda.

A ideia de jejum intermitente surgiu depois que os cientistas foram surpreendidos com os efeitos da restrição calórica constante. Uma série de estudos em muitos animais diferentes mostraram que o consumo restrito durante a vida adulta leva a melhorias dramáticas no tempo de vida e na saúde geral.

Os motivos para essas melhorias ainda não estão claros. Parte disso parece ser que, sem alimentos, às células do corpo fazem uma pausa, muito necessária, para realizar manutenção e reparo. Mas a falta de comida também obriga as células a recorrerem a fontes alternativas de energia. Algumas dessas, como as cetonas – moléculas criadas no fígado à partir de gorduras recicladas – parecem ser benéficas.

O problema é que a restrição calórica constante não é uma prática simples: é fácil para cientistas imporem a animais de laboratório, mas é difícil para os humanos realizarem no mundo real. Felizmente, aprendemos que a restrição calórica constante não é realmente necessária. O jejum intermitente parece ter muitos dos mesmos benefícios.

Existem dois tipos principais de jejum intermitente. Um tipo, conhecido como “alimentação restrita no tempo”, requer comer apenas durante algumas horas do dia – digamos entre as 10h e as 18h. Esta abordagem dá ao corpo uma longa pausa da comida a cada noite e também reforça os ritmos circadianos benéficos.

O outro tipo de jejum intermitente – popularizado pela dieta 5: 2 – é conhecido como “jejum periódico”. Esta abordagem envolve a alternância entre longos períodos de alimentação irrestrita e curtos períodos de comer muito pouco (cinco dias de comer normalmente, dois dias de comer calorias restritas).

Ainda não está claro se um tipo de jejum intermitente é melhor do que o outro. Mas os dados até agora sugerem que ambos os tipos podem funcionar.

Os estudos recentes sobre os efeitos do jejum intermitente sobre diabetes enfocaram o jejum periódico em particular. Como primeiro passo, os pesquisadores liderados por Valter Longo na Universidade do Sul da Califórnia, começaram testando se o jejum periódico poderia curar o diabetes em camundongos. Eles usaram ratos mutantes que não possuem o hormônio leptínico gordo para regular sua ingestão alimentar. Esses ratos comem constantemente e se tornam obesos e diabéticos no início da idade adulta.

Os ratos perderam peso durante o jejum periódico, o que ajudou, é claro. Mas essa não era toda a história. O jejum periódico realmente resolveu o problema diretamente em uma de suas fontes: o pâncreas.

Diabetes é uma doença caracterizada por excesso de “açúcar” de sangue, o que realmente significa excesso de glicose no sangue. É em grande parte um problema de insulina. Normalmente, a insulina faz com que as células do corpo absorvam glicose do sangue. Mas com diabetes, a glicose permanece no sangue porque as células já não a absorvem. Isso ocorre em parte porque muitas células perdem sua sensibilidade à insulina, mas também porque o pâncreas deixa de produzi-la.

Acontece que o jejum periódico faz com que o pâncreas comece a produzir insulina de novo. Os dias de alimentação restrita deram ao pâncreas uma pausa que permitiu remover e reciclar muitas das suas células. Então, quando os ratos começaram a comer de novo, surgiram novas células capazes de produzir insulina.

Assim, o pâncreas literalmente se encolhe durante os quatro dias de alimentação restrita e se recicla durante os sete dias de comer sem restrições. Após vários desses ciclos de encolhimento, reciclagem e regeneração, o pâncreas fica quase tão bom quanto um novo.

A grande questão, é claro, é se o jejum intermitente terá os mesmos efeitos em seres humanos. A resposta ainda não está clara, mas as indicações iniciais de um estudo clínico de segunda fase recentemente publicado, novamente liderado por Longo, são promissores.

Neste estudo, 100 pessoas passaram por uma série de ciclos de jejum periódico de 30 dias, cada um com 25 dias de alimentação irrestrita e cinco dias de alimentação restrita. Após apenas três ciclos, os indivíduos que iniciaram o teste com alto nível de açúcar no sangue viram grandes melhorias. E, mais importante, nenhum dos sujeitos do experimento apresentou efeitos nocivos.

Portanto, a evidência em suporte de jejum intermitente continua crescendo. Isso significa que todos devemos estar fazendo isso? Não necessariamente.

O jejum intermitente parece ser mais benéfico para aqueles que já estão acima do peso e não saudáveis. Embora pareça ter alguns benefícios para animais de laboratório magros e saudáveis, ainda não está claro se o mesmo é verdade para os seres humanos.

Um teste maior de fase três do jejum intermitente em seres humanos que irá esclarecer muitas coisas está pronto para começar. Os resultados serão sem dúvida muito emocionantes.

 

Nick Lesica é um pesquisador sênior do Wellcome Trust no University College London. Este artigo foi originalmente publicado em The Conversation (www.theconversation.com)

 

http://www.independent.co.uk/

 

PS DO EDITOR TIABETH:

ORIENTAÇÕES DE COMO SE FAZER O JEJUM PARA QUEM TEM DIABETES

Então, aqui estão algumas dicas sobre como diabéticos podem jejuar com segurança.

1 – Aqueles que podem jejuar sem nenhum problema. Estes são pacientes com diabetes tipo 2 (anteriormente conhecido como diabetes do adulto) que não tomam a medicação e simplesmente seguem um estilo de vida saudável, ou que tomam um comprimido por dia – do tipo que não baixa o açúcar no sangue além de um certo limite.

Mesmo sem comida, os níveis de açúcar no sangue desses pacientes não podem tornar-se perigosamente baixos. Então, no dia do Yom Kippur, esses diabéticos devem tomar o seu comprimido diário durante a refeição antes do jejum e outra pílula quando terminar o jejum.

2 – Aqueles que podem jejuar sob certas condições. Isso se aplica a pacientes com diabetes tipo 2 que tomam insulina para reduzir o açúcar no sangue ou pílulas que podem reduzir bastante os níveis de glicose. Assim, há a ameaça de que os níveis de açúcar no sangue fiquem baixos o suficiente para colocar em risco a vida do paciente. Esses pacientes podem jejuar, mas devem levar em conta que a abstenção de alimentos impede o nível de açúcar no sangue de subir.

Nesta situação, os medicamentos que reduzem o açúcar no sangue poderiam ser ainda mais eficazes; o açúcar no sangue pode então cair de forma acentuada e perigosamente – o que é conhecido como hipoglicemia. Assim, os pacientes que não sabem como o jejum vai afetar o açúcar no sangue e não podem renunciar à medicação não devem jejuar.

Os doentes que tomam estes medicamentos e ainda desejam jejuar devem usar um dispositivo de monitoramento em casa para manter o controle do açúcar no sangue durante todo o dia – de manhã, ao meio-dia, à tarde, à noite e antes de dormir. Eles também devem permitir que os membros da família ou amigos saibam que eles estão jejuando para que possam receber ajuda caso sintam tonteira ou fraco – os primeiros sinais de hipoglicemia.

3 – Jejum com insulina. Pacientes com diabetes tipo 1 (anteriormente conhecido como diabetes juvenil), que fazem uso de insulina devem continuar tomando-a, mesmo durante o jejum. Isso ocorre porque o corpo precisa de dois tipos de insulina: a insulina basal, a insulina de baixo nível que cobre a necessidade do corpo para o hormônio entre as refeições e à noite, e insulina de ação rápida, a que é tomada antes das refeições.

Pacientes com diabetes tipo 2 têm uma reserva de insulina basal, enquanto que os pacientes com diabetes tipo 1 não possuem insulina alguma. Eles devem monitorar o açúcar no sangue com freqüência ao longo do jejum e evitar qualquer diminuição.

4 – As pessoas que não devem jejuar. As mulheres que têm diabetes gestacional ou tiveram diabetes antes de engravidar não devem jejuar. Há uma ligação entre os níveis desequilibrados de açúcar no sangue e danos ao feto, problemas durante o parto e um risco geral para a saúde da mãe. Por exemplo, se o açúcar no sangue da mãe é alto, o feto irá utilizar o excedente de açúcar para ajudar a crescer – não é algo desejável nesta fase.

5 – Diabéticos com outras doenças relacionadas com a diabetes não devem jejuar também. Lembre-se que o açúcar é a principal fonte de energia do organismo. Baixa de açúcar no sangue causada por não comer pode causar fraqueza; isso se aplica ainda mais para os diabéticos que sofrem de doenças adicionais.

6 – Outros que não deve jejuar incluem:

  • diabéticos que sofrem de hipoglicemia súbita (geralmente a partir de overdoses de medicamentos ou de comer menos),
  • os diabéticos que se sentiram mal durante o jejum no passado, e
  • os pacientes que sofreram acidose diabética – um forte aumento do açúcar no sangue.

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