Tenho diabetes – devo me preocupar com a saúde bucal?

diabetes mellitus é uma síndrome metabólica caracterizada pelo aumento dos níveis de glicose no sangue – hiperglicemia – que pode ocorrer através de dois principais mecanismos: destruição das células do pâncreas (β-pancreáticas) responsáveis pela produção do hormônio insulina ou resistência a esse hormônio, prejudicando o metabolismo da glicose.

A forma como é gerado este acúmulo de glicose no organismo é que define o tipo de diabete que o paciente possui. O diabetes mellitus tipo 1 geralmente tem seu início na infância ou adolescência e corresponde a 5%-10% dos casos. Já o diabetes mellitus tipo 2 é mais frequente, ocorrendo em 90%-95% dos casos, acometendo indivíduos de meia idade (40 anos), sedentários e com sobrepeso.

Um fato preocupante é que a diabetes pode ser considerada uma epidemia mundial devido ao grande número de novos casos registrados anualmente. Traduzindo em números: no ano de 1985 estimava-se que houvesse cerca de 30 milhões de pacientes com diabetes no mundo, então houve um boom na incidência de casos e a projeção é que, em 2030, chegue a 300 milhões. De acordo com a Federação Internacional de Diabetes, o Brasil ocupa a quarta posição entre os países com o maior número de pessoas com diabete.

diabetes mellitus é uma doença silenciosa, sendo diagnosticada apenas após o paciente apresentar os sintomas característicos de uma hiperglicemia crônica como sede excessiva, frequência de urinar aumentada, perda de peso mesmo com grande apetite e fadiga. Além disso, outras complicações podem ocorrer em um indivíduo que não sabe que tem diabete ou que não alcança o controle metabólico com o tratamento, dentre elas podemos citar problemas renais, oculares, cardiovasculares e neurológicos.

A saúde bucal também é intimamente afetada pelos altos níveis de glicose. Quando falamos de saúde bucal, não devemos nos concentrar apenas nos dentes, mas também em todos os tecidos que envolvem os dentes e a cavidade oral, e é nesses tecidos que a diabete interage de forma mais nociva. A complicação bucal mais prevalente que podemos encontrar em pacientes diabéticos é a doença periodontal, considerada a sexta complicação mais frequente desses indivíduos.

Um fato preocupante é que a diabetes pode ser considerada uma epidemia mundial devido ao grande número de novos casos registrados anualmente. Traduzindo em números: no ano de 1985 estimava-se que houvesse cerca de 30 milhões de pacientes com diabete no mundo, então houve um boom na incidência de casos e a projeção é que, em 2030, chegue a 300 milhões.

A doença periodontal é uma doença infecciosa/inflamatória crônica que acomete tanto a gengiva (gengivite) como o suporte ósseo dental (periodontite). É caracterizada por inflamação gengival, formação de espaço entre dente e gengiva devido à destruição das estruturas de suporte do dente – bolsa periodontal, perda de inserção e destruição óssea alveolar, ocasionando mobilidade e possível perda do elemento dentário acometido.

Um grande número de estudos epidemiológicos demonstrou que a periodontite apresenta maior prevalência, incidência e severidade em pacientes com diabetes mellitus quando comparados com indivíduos sem diabete. Muitos dos meios pelos quais a diabete influencia o periodonto têm uma fisiopatologia similar às clássicas complicações presentes nesses pacientes.

Os mecanismos do efeito da diabete no desenvolvimento da patologia periodontal ainda não são claros, mas a severidade das duas doenças (diabete e doença periodontal) mostrou-se dependente de vários fatores de risco, tais como a duração e o controle metabólico da diabete, bem como a idade do paciente, comportamento social, nível de higiene oral e de certos fatores agravantes (fumo, por exemplo).

Diversas pesquisas apontam que a relação entre a diabete e a doença periodontal acontece de forma bidirecional, em que as alterações no sistema imune devido à hiperglicemia tornam a diabete um fator de risco para a doença periodontal, bem como o caráter inflamatório da doença periodontal influencia no controle metabólico, aumenta a resistência à insulina e aumenta o risco para outras complicações diabéticas.

Em outras palavras, a prevalência e severidade de complicações não orais estão correlacionadas com a severidade da doença periodontal. Estudos mostram que piores condições de saúde periodontal aumentam a incidência de problemas renais e cardíacos.

Atualmente os estudos buscam testar a hipótese de que o tratamento para doença periodontal auxilia no controle dos níveis glicêmicos. O objetivo do tratamento periodontal é reduzir o número de patógenos das áreas afetadas e remover ambientes propícios à colonização microbiana através de terapias cirúrgicas/não cirúrgicas com emprego de antibiótico quando necessário.

Um grande número de estudos epidemiológicos demonstrou que a periodontite apresenta maior prevalência, incidência e severidade em pacientes com diabetes mellitus quando comparados com indivíduos sem diabete. Muitos dos meios pelos quais a diabetes influencia o periodonto têm uma fisiopatologia similar às clássicas complicações presentes nesses pacientes.

As pesquisas preliminares mostram que foi possível reduzir, ainda que discretamente, os índices de glicose ligada a células sanguíneas (hemoglobina glicada) depois que os pacientes foram submetidos ao tratamento periodontal. Estas observações são importantes porque as reduções na hemoglobina glicada estão associadas com um risco reduzido de complicações da diabete. Por exemplo, cada redução de 1% na HbA1c foi associada a reduções de 21% no risco para qualquer complicação relacionada com a diabete, 21% das mortes relacionadas à diabete, 14% para o infarto do miocárdio e 37% para as complicações microvasculares.

O tratamento da diabete é complexo e a prevenção de doenças cardiovasculares e microvasculares, através da detecção precoce e manejo de complicações, é componente-chave. A intervenção no estilo de vida, educação, autogestão e automonitorização são particularmente importantes, além dos tratamentos para reduzir a glicose no sangue, pressão arterial e lipídios. Semelhante à diabete, as filosofias de tratamento atuais para a doença periodontal enfatizam a autogestão através da educação do paciente, com a instrução de higiene oral e, por conseguinte, controle mecânico do biofilme (placa).

Dessa forma, fica clara a importância da manutenção da saúde bucal em pacientes com diabete e tratamento da doença periodontal, principalmente em fases iniciais, quando o dano periodontal ainda pode ser reversível. A prevenção das patologias orais sempre será o melhor caminho no manejo de pacientes sistemicamente comprometidos, como é o caso da diabete.

É importante salientar, ainda, que esse grupo de pacientes exige certos cuidados durante suas consultas odontológicas, como preferencialmente serem agendadas no turno matutino com sessões de curta duração, além da monitorização das taxas glicêmicas pelo profissional e compromisso do paciente em fazer uso dos medicamentos e/ou insulina prescritos pelo seu endocrinologista. Estabelecida uma relação de confiança entre profissional-paciente, é possível realizar tanto procedimentos de urgência como os procedimentos considerados eletivos, tais como restaurações, canal e outras práticas estéticas.

 

  • Carla Andreotti Damante é professora de Periodontia na Faculdade de Odontologia da Bauru (FOB-USP)
  • Paula de Oliveira Cunha é doutoranda da mesma FOB-USP 

 

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