Blog – Parte 22 – Uma hipoglicemia em Paris

Foto de TiaBeth tirada na Torre Eiffel em Paris (2001)
Foto de TiaBeth tirada na Torre Eiffel em Paris (2001)

– Você pode me trazer o adoçante? 🙂

– Pardon madame, mas não temos adoçante aqui neste avion. 🙄

O diálogo acima aconteceu no ano de 2001, durante um voo da Air France que partiu do Rio para Paris. Não havia adoçante a bordo. Quando fui para a França pela primeira vez, sem TiaBeth, a falta de açúcar iria me preocupar mais do que a falta de adoçante, mas agora estando ao lado de alguém com diabetes tipo 1, passei a ficar mais atento a estes detalhes.

Programamos nosso roteiro de viagens ainda no Rio numa agência. Foi-nos reservado um quarto em um antigo hotel situado no Quartier Latin, próximo à Sorbonne, a Universidade de Paris. E apesar de amplo e com vista para a rua, as acomodações eram bastante simples, nem frigobar havia. Também antes de partirmos, TiaBeth procurou saber qual seria a temperatura em Paris  por ocasião de nossa estada. Ela utilizou o buscador Altavista (o Google da época), e encontrou como resposta um clima “ameno”. Não existia Climatempo ou congêneres na época, e ao chegarmos, sentimos um frio implacável, (quase 0 ºC), quase insuportável para os padrões cariocas. Nossos casacos não eram muito adequados para aquele clima, mas não deixamos de aproveitar o passeio por isso. Talvez esta falta de precisão nas buscas tenha sido um dos motivos para o fim do Altavista.

Sendo Paris uma cidade plana, e também pelo fato de ser o primeiro dia de TiaBeth na Europa, resolvemos fazer um tour a pé. Então no dia seguinte acordamos cheios de disposição e partimos assim que o dia clareou. Ao sairmos do hotel logo passamos por Sorbonne, onde pude observar as estátuas de alguns filósofos ao alto do prédio. Pouco depois chegamos à famosa Catedral do corcunda de Notre Dame, onde apreciamos a arquitetura e os vitrais. No percurso, qualquer prédio histórico ou arte pelo caminho era objeto de deslumbramento. Continuando a caminhada, fomos até o Centro Georges Pompidou, depois cruzamos o Museu do Louvre, andamos por toda a Chámps-Élysées e finalmente chegamos ao Arco do Triunfo. Em seguida almoçamos no restaurante da Galerie Lafayette, encerrando a manhã deste primeiro dia, que seria inesquecível para nós.

Durante o passeio era raro encontrar adoçante em bares pelo caminho. Nem existia um nome específico, em francês, para o adoçante, motivo o qual eles o chamavam pelo nome da marca mais conhecida, assim como o “dietil” foi para nós, por alguns anos, sinônimo de adoçante. Já o açúcar refinado era livremente utilizado sem culpas. Em compensação, os restaurantes franceses ofereciam uma gama de pratos saudáveis, uma culinária impecável com uma fartura de coloridas saladas sempre acompanhadas por água da bica em jarra (a água era sempre grátis 🙂 ). Pelo menos naquele ano de 2001, observei um povo parisiense magro e elegante, não havia obesidade entre a população. E para sorte do universo masculino, constatei algo que já havia reparado nos cinemas, uma certa desproporcionalidade entre a beleza das mulheres francesas (Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Audrey Tautou, …) com a “não beleza” dos homens (Napoleão, Alain Prost, Gerard Depardieu, …), mas isso é outra história. 🙂


Acompanhe o emocionante passeio de TiaBeth por Paris através deste vídeo

A pessoas de Paris eram bastante simpáticas com os turistas que falavam francês. Apesar de me comunicar melhor em inglês, esforçava-me ao máximo para falar a língua nativa. Desta forma, eu e TiaBeth éramos muito bem recebidos em todos os lugares que íamos, o que tornou nossa viagem ainda mais agradável. Somente numa ocasião, numa praça a caminho da Catedral de Sacre-Couer no Mont-Martre, um artista nos destratou só porque não me interessei em adquirir sua “arte”. – “Touriste Coca-Cola“, foi do que ele nos “xingou”. Coca-Cola parecia ser um termo pejorativo para eles. Na mesma hora disse para TiaBeth, em português claro, que o sujeito era um “Artista de Merda“, que em bom francês tem o mesmo significado. Ele escutou e ficou intrigado se o que ele ouviu era o que ele imaginava ser. Não esperei por sua reação e parti.

Naquela época, pedir uma Coca-Cola num bar ou no restaurante para acompanhar um prato de comida, ou mesmo matar a sede, causava estranhamento. Então, para evitar olhares de censura, quase não bebia desta iguaria, mesmo que, às vezes, só houvesse a diet Coke além da água como opção para TiaBeth.

Ao final do passeio deste dia, depois de muito caminhar, chegamos estafados ao quarto do hotel e caímos na cama. – “Vamos dormir um pouquinho antes de sairmos para jantar ☺“, disse. E assim foi.

Despertei logo depois. Já era noite e TiaBeth dormia o mais profundo sono dos justos. Porém, este sono parecia profundo demais. Passei a mão em seu rosto e vi que havia muito suor. Tentei despertá-la e não tive êxito. Agora queria acordá-la de qualquer maneira, e também não consegui. Ela estava tendo uma hipoglicemia, desta vez uma internacional, na França, o que não era nenhum consolo. E eu, sempre um pouco despreocupado sem imaginar que algo de ruim pudesse acontecer numa viagem dessas, não tinha ideia de como funcionava o sistema de saúde francês, se eles atendiam turistas, onde havia hospital, como funcionava o seguro de viagens, esse tipo de coisas. Foi quando surgiu o primeiro estágio de um pequeno desespero 😨. E o pior seria ter que explicar tudo que se passava em francês, pensei.

Em mais uma tentativa de solucionar sozinho o problema, respirei fundo enquanto TiaBeth “dormia” ao meu lado, olhei ao redor e visualizei algumas balas, mas no estado em que ela se encontrava seria perigoso oferecer, pois poderia engasgar e acabar sufocando. Procurei o frigobar. (!#@$%&*** 😡) – mas não havia frigobar. Como última alternativa, resolvi descer, superar a vergonha e pedir uma Coca-Cola “urgente” ao recepcionista do hotel. Ele achou graça da “urgência” do pedido, e rapidamente, sem perguntas, me deu o refrigerante.

Corri para o quarto com a garrafa e copo na mão, e apoiando a cabeça de TiaBeth, coloquei-lhe em sua boca aquele milagroso líquido. Ela reagiu e bebeu vagarosamente aquilo que lhe parecia uma ambrosia dos deuses (por que falam tão mal da Coca?! 😮 ). No fim bebeu toda a garrafa. E sentindo-me aliviado após este grande momento de tensão, só me restava aguardar sua recuperação daquela hipoglicemia que foi très grand.

Todo este episódio levou mais de uma hora, porém poucos minutos depois, TiaBeth estava completamente recuperada e nem teve ideia do que aconteceu. Apenas acordou e disse:

-Vamos jantar onde agora? 🙂

– Ainda não sei, só sei que vamos de metrô. 🙁

 

marido-tiabethNey Limonge é psicanalista, engenheiro elétrico e casado com Raquel Limonge, diabética do tipo 1 e protagonista das suas histórias. Escreve o blog Psicoanalisando quando lhe sobra tempo e também o  Blog da TiaBeth. Ele não tem diabetes.;


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